ICS Policy Briefs 2020 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade
3 Initiative da Organização Mundial da Saúde 5 . Acresce a nossa dependência alimentar: o país importa 73% dos alimentos que consome sendo o país mediterrânico com maior pegada alimentar per capita. Acima de tudo impor- tamos cereais (86%), açúcares (78%) e gorduras alimentares (72%); segue-se vegetais, tubérculos, leguminosas (67%) e fru- tos frescos e secos (66%); vem depois o peixe e derivados (60%) e a carne (47%) 6 Portanto, o nosso actual padrão alimentar é caracteriza- do não só como tendo uma pegada de carbono elevada, mas também uma baixa qualidade nutricional. Acrescem as desi- gualdades que ainda caracterizam o tecido social do país. Os grupos economicamente mais desfavorecidos têm frequente- mente dificuldade em aceder a este tipo de alimentação, não só pelo seu custo, mas também pela falta de infraestruturas físicas e regionais do país. As modernas cadeias de abasteci- mento permitem às populações das grandes zonas urbanas aceder a uma oferta diversificada de produtos alimentares, que geralmente não alcança os habitantes das zonas rurais e menos densamente povoadas do interior. De acordo com o inquérito EpiDoC que obteve dados de uma amostra representativa da população portuguesa em 2015 e 2016 verificou-se que 19,3% dos agregados familiares portugueses estavam em situação de insegurança alimentar 7 . Cada vez mais especialistas apelam para a necessidade urgente de se implementar uma grande transformação dos hábitos alimentares na direção de uma alimentação sustentá- vel, saudável e inclusiva. Mas nem sempre esta tríade – saúde, ambiente e inclusão social – esteve presente nos objetivos das políticas alimentares que se começaram a desenhar depois da II Grande Guerra Mundial, durante o esforço de recuperação económica e social na Europa, sendo muitas vezes a saúde e o ambiente relegados para segundo plano em detrimento das políticas que incentivavam os interesses económicos, o cres- cimento da produção industrial agroalimentar e a facilida- de de acesso ao mercado global. Note-se que, em Portugal, as 5 COSI Portugal (2017), “Childhood Obesity_Surveillance Initiative: COSI Portugal 2016”. 6 Ver Galli, A., Pires, S. M., Katsunori, I.; Alves, A. A., Lin, D., Mancini, M. S., Teles, F. (2020), “Sustainable Food Transition in Portugal: Assessing the Footprint of Dietary Choices and Gaps in National and Local Food Policies.” Science of The Total Environment 749 (December 20, 2020): 141307. 7 Graça, Pedro (2020), Como Comem os Portugueses – Alimentação , Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos. políticas integradas de alimentação e nutrição, de promoção da saúde, de alimentação sustentável e mitigação da insegu- rança alimentar surgem de forma mais integrada e sistemáti- ca apenas a partir de 2012 com o primeiro Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável da Direção Geral de Saúde (apesar de alguns esforços meritórios, embora insu- ficientes, realizados antes desta data). Começamos por contextualizar as principais etapas da emergência das políticas alimentares e de nutrição em con- texto europeu e nacional nas últimas cinco décadas. Analisamos depois, por um lado, o modo como os portu- gueses se posicionam face a alguns dos desafios de saúde e sustentabilidade no que respeita ao consumo alimentar e, por outro lado, o seu posicionamento face à intervenção do Esta- do na promoção de hábitos alimentares e de políticas públicas na área da alimentação e nutrição. Para tal, baseamo-nos nos resultados do 2º Grande Inquérito à Sustentabilidade que foi aplicado em 2018, a 1600 inquiridos. POLÍTICAS ALIMENTARES E DE NUTRIÇÃO: CONTEXTUALIZAÇÃO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS NA EUROPA E EM PORTUGAL (1970-2020) 8 Pós-Guerra - No período a seguir à Segunda Grande Guer- ra Mundial , as primeiras estratégias alimentares pretendiam colmatar carências energéticas (calorias) da população euro- peia depois dos duros anos da guerra. Os objetivos estavam 8 Esta secção baseou-se no trabalho desenvolvido em P. Graca, M.J. Gregorio (2012), Evoluço da politica alimentar e de nutriço em Portugal e suas relacões com o contexto internacional, Alimentação Humana , 18, pp. 79-96. Cada vez mais especialistas apelam para a necessidade urgente de se implementar uma grande transformação dos hábitos alimentares no sentido de uma alimentação sustentável, saudável e inclusiva.
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