ICS Policy Briefs 2020 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade
O s atuais padrões alimentares das sociedades ocidentais industrializa- das têm sido associados a um número crescente de problemas ambien- tais, que incluem a degradação de terrenos aráveis e florestais (e.g. des- matamento da Amazónia para a agroindústria), poluição atmosférica, poluição e destruição de recursos hídricos, perda de biodiversidade e, em particu- lar, o contributo para o agravamento das alterações climáticas através da emissão de gases com efeito de estufa. O relatório do Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas 1 estima que cerca de um quarto do total das emissões de gases com efeito de estufa esteja ligado à atividade agrícola, pecuária e silvíco- la, não só através das emissões diretas decorrentes da produção, mas também do impacto da desflorestação para abertura de novos terrenos à exploração, de forma a satisfazer o aumento global do consumo de proteína animal (e.g. rações para animais de produção). O relatório da EAT-Lancet Commission 2 identifica, em par- ticular, a necessidade de inverter o trajeto de aumento do consumo de carne e de outros produtos de origem animal nas sociedades ocidentais e aumentar o consu- mo de produtos de origem vegetal como leguminosas, oleaginosas (frutos secos), frutas e vegetais. O consumo alimentar em Portugal tem convergido rapidamente com os restan- tes países ocidentais ao longo das últimas quatro décadas, afastando-se do padrão da dieta mediterrânica e aumentando substancialmente o consumo de produtos de origem animal. Segundo dados do Instituto Nacional da Estatística 3 , em 2019 o consumo anual de carne atingiu os 119Kg/per capita, sendo que o consumo de carne de vaca e porco duplicaram entre 1980 e 2019, para 20,8kg e 44,3kg por pes- soa/ano, respetivamente, enquanto o consumo de carne de aves quase triplicou no mesmo período para 44,4kg por pessoa/ano. Uma alimentação nutricionalmente desadequada e desequilibrada com excesso de proteína animal, gorduras saturadas, açúcar e sal, aliada à insuficiência na ingestão de hortofrutícolas (em média 284gr/ dia, muito abaixo dos 400gr/dia recomendados pela Organização Mundial de Saú- de) tem acelerado o aumento das doenças cardiovasculares, da diabetes e do exces- so de peso entre a população portuguesa. Mais de metade de população adulta em Portugal (53,6%) tem excesso de peso, em particular nas faixas etárias com mais de 44 anos onde a taxa de obesidade é mais elevada 4 . A prevalência do excesso de peso estende-se também à população infantil, com 30,7% das crianças de 7 anos a apre- sentarem excesso de peso, segundo um estudo da Childhood Obesity Surveillance * A equipa do IIº Inquérito à Sustentabilidade em Portugal foi coordenada por Mónica Truninger e Luísa Schmidt e composta, para além de Luís Junqueira, por João Graça, Pedro Prista e Susana Fonseca. Agradecemos a estes três membros da equipa o excelente trabalho que desenvolveram no desenho do inquérito, análise dos dados e escrita do relatório no qual se baseia este brief. O Inquérito resultou de uma parceria entre o OBSERVA/ICS-ULisboa e a Missão Continente. 1 IPCC (2019) https://www.ipcc.ch/srccl/ 2 Willett, W. et al (2019), “Food in the Anthropocene: The EAT–Lancet Commission on Healthy Diets from Sustainable Food Systems”, The Lancet . https://www.thelancet.com/ journals/lancet/article/PIIS0140-6736(18)31788-4/fulltext. 3 INE (2020) “Balanço de aprovisionamento de produtos animais”. 4 INE (2020) “Inquérito Nacional de Saúde”. INTRODUÇÃO* ÍNDICE Introdução 2 Políticas alimentares e de nutrição: contextualização das políticas públicas na Europa e em Portugal (1970-2020) 3 Práticas alimentares dos portugueses 6 Apoio a políticas publicas na área da alimentação 8 Principais Conclusões 10 Recomendações 11
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