ICS Research Brief 2019 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade
8 Portugal, a primeira vez que eu comi. (risos). Ou como diz um pequeno retalhista do Reino Unido: Eles [supermercados] tem uma máquina que passam pelo terreno e cortam uma tonelada por hora ou algo assim e depois enfiam num grande saco, enquanto que nós vamos a uma quinta-feira à noite buscar os produtos a uma herdade, que foram colhidos nesse mesmo dia, e vendemos logo no dia seguinte... (Pequeno retalhista, Reino Unido, tradução própria) Mas também há conflitos entre as diferentes versões de frescura. Por exemplo, quando esta é feita de forma a enfatizar o que é natural e autêntico. O processamento e embalamento dos alimentos pode inadvertidamente alter- ar a textura e sabor (tornando os alimentos menos naturais e autênticos), mas ao mesmo tempo protege o produto de contaminações bacterianas e conservam-no por mais tem- po. A resolução destas tensões pode ter de obrigar a encur- tar o transporte dos alimentos e diminuir a sua capacidade de conservação, aumentando os riscos de segurança e desper- dício alimentares, pois os produtos terão a tendência para se estragar mais facilmente por serem menos processados. A FRESCURA E OS CONSUMIDORES A frescura alimentar foi muito valorizada nas entrevistas com consumidores britânicos e portugueses. Porém, estes últimos realçaram mais a sua importância (indo ao encontro dos estudos quantitativos), associando-a ao que é mais “natu- ral” e “autêntico”. Para ambos os grupos de consumidores o oposto à “frescura” é o “processado”. Ambos definem os ali- mentos frescos como não sendo muito manipulados, não ten- do químicos e “com cheiro a campo”. Alguns referem que a fruta fresca tem mais sabor porque foi produzida no exterior ao sol, e não em estufas. A frescura é ainda associada ao que é saudável, sobretudo entre as famílias com crianças. Eu dou-lhe [criança] sempre coisas frescas... evito coisas que lhe façam mal... em termos nutricionais. Ele é o que come melhor aqui em casa... come sempre bem, e sempre fresco (Entrevista, família com crianças, Lisboa, 2017). Acesso aos produtos frescos Ambos os grupos de consumidores entrevistados, tanto no Reino Unido como em Portugal, têm fácil acesso a pro- dutos frescos, quer seja através dos supermercados, quer seja por meio do comércio de proximidade, como as lojas especializadas, as feiras e mercados. Porém são os consumi- dores portugueses que mais utilizam estas lojas de comércio de proximidade, já que muitos são céticos acerca da frescura alimentar oferecida nos grandes supermercados, sobretudo os residentes que entrevistámos no Algarve. No Reino Uni- do são sobretudo as pessoas mais velhas que compram mais nas lojas de especialidade, nos mercados ou diretamente na quinta. Muitos mostram-se preocupados com os produtos que crescem de forma forçada e que se estragam rapidamente, os quais se encontram disponíveis nos supermercados. Também têm algumas dúvidas sobre a qualidade da carne e peixe à venda nos supermercados. No entanto, a variedade de esco- lha, a conveniência e o preço fazem com que não deixem de ir aos grandes supermercados, tornando-os parte das suas rotinas alimentares. Os mais jovens estão preocupados com a conservação de alguns alimentos (por não aguentarem mui- to) e com a origem de produção daqueles que se vendem nos mercados tradicionais. Seleção de produtos frescos Na seleção de produtos alimentares frescos, os consumi- dores tendem a confiar nos seus sentidos (visão, tato, cheiro e som). No caso das frutas e legumes procuram verificar se estes têm manchas, apresentam falta de cor ou se estão mur- chos. Muitos estão conscientes de que a aparência de frescu- ra nos supermercados é industrialmente fabricada. Ilustram isto com a utilização de luzes nos expositores de carne para melhorar a aparência. Também “olham com os dedos” ao pres- sionar os produtos para ver se estão no ponto ideal de matura- ção. Este gesto é algo que vai contra as orientações dos super- mercados pois acelera a degradação dos frescos. Mas por isto mesmo, e também por causa do embalamento dos produtos (que garante a segurança e higiene alimentares) nem sempre é possível “olhar com os dedos”, sendo que a relação interpes- soal de confiança com o vendedor é fundamental para ajudar na seleção dos produtos. Em Portugal, vários relataram ter uma relação de confiança com a peixeira ou com o senhor da frutaria no mercado, delegando a escolha aos vendedores. Conservação da frescura Os consumidores empregam uma série de estratégias para prolongar a vida útil dos frescos pós-compra. Estas incluem, por exemplo, colocar uma alface num recipiente com água no frigorífico (Figura 6), colocar salsa num copo com água, ou
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