ICS Research Brief 2019 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade
7 Efeitos das múltiplas versões de frescura Existem várias relações entre essas diferentes versões de fres- cura. Embora muitas vezes existam por si só, estas versões podem coexistir umas com as outras em diferentes combi- nações. Às vezes essas relações são de harmonia, mas outras são de conflito. As diferentes maneiras de “fazer” frescura cri- am efeitos e resultados diferentes. Estes têm impactos para a organização social e económica dos sistemas alimentares. Por exemplo: • Quando as versões temporal e técnica se combinam, a fres- cura é uma qualidade industrialmente produzida. O resul- tado é a disponibilidade de produtos durante todo o ano que não variam muito, apresentando uma qualidade alimentar consistente. Os grandes supermercados estão bem coloca- dos para “domesticar” a natureza e oferecer uniformidade aos seus produtos. Como refere uma campanha sobre fres- cura de um grande supermercado português (Pingo Doce): “Frescura acabada de colher, somos exigentes por natureza até com o que vem da natureza” . O objetivo é fornecer aos con- sumidores produtos com qualidade alimentar consistente e sempre frescos. Esta versão combinada impõe um sis- tema de organização e coordenação que pode ter impac- tos na sustentabilidade alimentar. Por exemplo, os agri- cultores são obrigados a cultivar produtos que respeitem certas especificações de qualidade (e.g. tamanho, calibre, controlo de pesticidas e fertilizantes) e os alimentos que não atendam a estes padrões estão em risco de ser desper- diçados. No entanto, alguns alimentos fora dos padrões “normalizados” de qualidade podem ser canalizados para o consumidor através de cooperativas (e.g. Fruta Feia), fazendo emergir outras versões combinadas de frescura alimentar (espacial e sensorial). • Quando se fazem associações entre frescura, sazonalida- de e local então temos a emergência de uma nova ver- são de frescura. Estas associações fortalecem a vantagem competitiva dos pequenos produtores e vendedores que ao enfatizarem estas qualidades acabam por diferenciar o seu produto em relação àqueles que são produzidos em massa, sempre iguais. É na oferta de alimentos com for- mas e tamanhos diferentes, com uma aparência cosmé- tica mais “feia”, na venda direta do campo ou do mar ao prato (e.g. Cabaz do Peixe), e na construção de relações pessoais e de cuidado com os seus clientes que estes produ- tores e vendedores se distinguem. Também para os consu- midores a associação de frescura com o local pode permi- tir em determinados círculos expressar um conhecimento distintivo e superior sobre a comida, revelar bom gosto e realçar as suas origens biográficas a lugares onde a comida “fresca” é autêntica. Como refere Xinavane, 44 anos e originário de São Tomé e Príncipe: Ainda por cima eu venho de uma terra onde nós só comíamos pei- xe fresco, que é São Tomé e mesmo em Angola. Sempre tive a sorte de viver ao lado da praia. E muitas das vezes até ajudava os pesca- dores a puxar a rede... cinco minutos estava na praia, pronto... Sem- pre comi mais peixe fresco. Peixe congelado, para mim foi aqui em Figura 6 – Cooperativa Fruta Feia, Feira da Ladra, Lisboa. Foto: J. Baptista, 2016. Figura 7 – Pesca em São Tomé e Príncipe. Foto. "fishermen 047" by felizfeliz is licensed under CC BY-ND 2.0
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