ICS Research Brief 2019 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade

4 Quando aplicada à alimentação, a frescura é globalmente vista como uma qualidade positiva. O termo evoca imagens de produtos que são saudáveis, naturais e não adulterados. No entanto, a disponibilidade de produtos frescos todo o ano rompe com o ciclo natural da sazonalidade e depende de processos que são tudo menos naturais. Estes incluem redes de distribuição cada vez mais globalizadas, a utilização de tecnologias de refrigeração e de embalamento, bem como processos de conservação em câmaras de atmosfera controla- da entre outros. É o que se denomina o “paradoxo da frescura industrial” (Freidberg 2009). Assegurar a frescura nos siste- mas alimentares industriais implica impactos ambientais e sociais significativos. FRESCURA ALIMENTAR E SUSTENTABILIDADE Algumas das consequências não intencionais que decorrem da manutenção da frescura nos sistemas alimentares são: • Frescura e energia: A disponibilidade durante todo o ano de produtos “frescos” depende da manutenção de uma lon- ga cadeia de frio. Esta utiliza tecnologias que consomem muita energia. Cada vez mais, as tecnologias de armaze- namento a frio são usadas para acondicionar e distribuir produtos frescos. Por exemplo, o sumo de laranja considera- do fresco (‘refrigerado’ e ‘não concentrado’) tem o triplo da pegada de carbono do sumo de laranja ‘concentrado’ vendi- do à temperatura ambiente. • Frescura e água: O que comemos e onde produzimos criam vários riscos para a qualidade e quantidade de água utiliza- da. Em 2015, o setor da agropecuária em Portugal Conti- nental consumia 74,7% de água doce, o equivalente a 3.389 hectómetros cúbicos por ano (hm3/ano). Já o fornecimento de frutas e legumes frescos para o Reino Unido requer 550 milhões de m3 de água doce por ano; 76% deste valor refere- -se à produção no exterior, muitas vezes em áreas de stress hídrico. Acresce ainda toda a problemática da poluição da água provocada pela agricultura intensiva industrial (e.g. pesticidas, fertilizantes). • Frescura e desperdício alimentar: Os produtos frescos estão em constante risco de desperdício da produção pri- mária para o consumo final. Os consumidores muitas vezes compram produtos frescos em excesso por causa das men- sagens mediáticas que associam ‘alimentação saudável’ à ‘frescura’. Depois lutam contra o tempo no dia-a-dia para consumir tudo antes dos alimentos se estragarem, muitas vezes sem sucesso. No Reino Unido, mais de dois milhões de toneladas de produtos frescos são desperdiçados a cada ano na cadeia alimentar. Em Portugal, um milhão de tone- ladas de alimentos são desperdiçados pelos consumidores anualmente, o que equivale a uma média de 132 quilos por ano/per capita. • Frescura e trabalho agrícola: Nos últimos 40 anos hou- ve uma rápida expansão da produção industrial de frutas e vegetais frescos. Estes alimentos desejáveis e desejados e muitas vezes caros dependem de trabalho sazonal invisível e subvalorizado. A produção intensiva de produtos frescos no Mediterrâneo, nomeadamente em Portugal, depende da mão-de-obra de trabalhadores da Europa Oriental, Ásia, Norte de África e América Latina. Estes imigrantes enfren- tam, muitas vezes, empregos precários, exploração e exclu- são social. Para além disso, tensões e conflitos sociais estão já a emergir nas áreas de produção (por exemplo, no litoral e interior rural português) devido à débil integração social destas comunidades agrícolas e à falta de planeamento na organização dos serviços à população residente, sobretudo a mais envelhecida que exige cuidados frequentes (e.g. saú- de, apoios e prestações sociais). PARTE II – RESULTADOS Das entrevistas com o grande e pequeno retalho, e os con- sumidores dos dois países verifica-se que há várias formas de definir frescura, e uma delas passa pelo recurso a termos ou ideias opostas. Por vezes, os alimentos frescos são defini- dos por oposição aos produtos congelados. Outras referem-se a alimentos que foram colhidos ou preparados recentemen- te por contraste aos alimentos que viajaram longas distân- cias (“peixe de viagem”, ver Figuras 2 e 3), ou que começa- ram a apresentar sinais de bolor, degradação ou mau cheiro. Podem ainda referir-se a refeições que foram cozinhadas “do zero” usando ingredientes crus em oposição aos alimentos

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