ICS Research brief 2019 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade
9 Precaução e dúvidas por parte das gestantes As gestantes para quem o tema das substâncias químicas no quotidiano é relevante, optam, com frequência, por fazer as suas próprias pesquisas, visto sentirem que junto dos profissio- nais de saúde não encontram as respostas adequadas. Nos contextos de maior informação é muito frequente que as gestantes apliquem o princípio da precaução, isto é, dado não terem a certeza se é prejudicial ou não, optam por não usar ou não fazer, dado tratar-se de um período limitado de tempo. “(…) sabia que ia estar grávida no verão e é o tempo da praia e eu cos- tumava pintar as unhas dos pés e até hoje não tenho resposta. Perguntei à médica, pesquisei na internet, perguntei a muita gente, mas nunca tive a certeza se era 100% seguro ou não e então acabei por não usar. Mas também sinto que as pessoas não valorizam muito isso, que isso não faz mal nenhum. A própria médica disse: “põe, mas depois tira isso”. Mas eu fiquei assim um bocadinho, porque então se tiro, porque é que ponho? Não é? Sinto que não há propriamente respostas (…)” Entrevistada 1, Licenciada, 1ª gravidez “Há coisas que eu sei que não se deve usar no início da gravidez. Não sei porque é que sei, mas há sempre umas coisas, que não se deve pôr no corpo logo no início. Mas também não foram hábitos que alterei. Nem o champô, nem pintar o cabelo, a minha médica disse que não havia problema, mas acabei por ainda não pintar. Queria pintar, mas ainda não o fiz.” Entrevistada 15 – 12º ano, 2ª gravidez Mesmo para as gestantes mais informadas não é uma tarefa fácil conseguir deslindar que informação é relevante ou credí- vel. O facto dos profissionais de saúde e mesmo no âmbito das suas redes de sociabilidade não haver um reconhecimento do problema, adensa as dificuldades que estas mães sentem em tomar as decisões “mais acertadas” para si e para o seu bebé. “De resto tenho a sensação que as pessoas acham que nada faz mal e eu não tenho a certeza e mudei de desodorizante, não mudei o cham- pô, fui fazendo assim algumas coisas. (…) Não costumo maquilhar-me, mas costumava pintar as unhas, com verniz de gel algumas vezes, não muitas vezes, mas às vezes fazia e deixei de fazer. Acho que posso fazer depois. Pintar o cabelo não, não costumo. Mas costumo usar creme hidra- tante, desodorizante, creme para o rosto, champô, amaciador, estas coisas e não tenho qualquer tipo de informação credível. Não consegui encontrar.” Entrevistada 1, Licenciada, 1ª gravidez “Na parte da cosmética tive o cuidado de reduzir. Os cremes limitei-me ao mínimo - o tónico o creme hidratante, o creme dos olhos. Os antirru- gas dizem que não fazem bem então “esquece o antirrugas agora durante um bocadinho”. Tentei limitar por às vezes não saber ou não saber todos os componentes, mas se dizem por aí que não é muito adequado, muito permitido, não é que faça mal, mas é a tal coisa, não está estudado, se não é uma coisa que precisamos mesmo, mesmo, podemos viver um boca- dinho sem isso também.” Entrevistada 5, Licenciada, 1ª gravidez O desencadear da preocupação – fatores principais As razões que podem levar a uma maior consciência sobre o tema dos químicos são variadas e podem decorrer de problemas de saúde, do contacto com países ou pessoas onde este tema já há muito está presente no debate público ou ainda do contacto com blogs e outros conteúdos na Internet onde este tema vai surgindo. Para algumas mães é claro que se trata de uma área de conhe- cimento cumulativo, ou seja, normalmente a preocupação surge numa área da vida quotidiana, mas depois vai evoluindo para outras áreas. Por exemplo, alguém que começa a ter outra aten- ção à presença de substâncias químicas perigosas na alimenta- ção, posteriormente vai evoluindo para áreas como a cosmética, os detergentes, dependendo também da capacidade financeira e do investimento feito na transição. Esta transição mais holística resulta não apenas da reflexão pessoal, mas também das fontes de informação, onde muitas vezes se encontram informações cruzadas sobre várias áreas. A seu tempo, o contacto com esta informação leva ao aumento da literacia destas mães sobre o tema e a uma maior capacitação para ir fazendo opções mais conscientes e, em seu entender, mais saudáveis para si e para a sua família. No essencial, trata-se de uma preocupação que, uma vez desenvolvida e integrada nas escolhas quotidianas, não volta para trás e não desaparece. Antes tende a alargar-se para mais áreas, tão só haja disponibilidade financeira e acesso às soluções mais sustentáveis. “A preocupação não surgiu por eu estar grávida, já tinha essa noção, fiquei foi mais atenta, acho que há um sentido de responsabilidade auto- mático que surge em nós, e que eu não tinha noção, mas que imediata- mente senti, porque sei que tenho um bebé e tudo o que passa por mim passa para ele. Eu já era sensível a isso. Eu tenho alguns amigos que vivem fora, que vivem na Escandinávia, países onde já há uma outra sensibilidade para estas causas. Já lá fui várias vezes e gostei. Penso que o facto de ter viajado me permitiu a oportunidade de conhecer outras formas de estar e outras formas de pensar.” Entrevistada 1, Licenciada, 1ª gravidez “Houve um momento marcante na minha vida (…). Eu tive 7 gastroen- terites de 15 em 15 dias. Eu não me conseguia levantar. De cada vez que ia ao médico e não havia nada já andava a fazer exames mais aprofun- dados para despistar doenças autoimunes e pela primeira vez senti-me uma pessoa doente e sentia pânico. E (…) houve um dia em que eu disse: (…) “isto tem que parar, há qualquer coisa que está instalada no meu estilo de vida, que há-de ser silencioso, e que me está a fazer mal” (…). Lembro-me de falar com o meu marido e dizer “vamos mudar isto cá em casa, vai mudar a alimentação de toda a família e nós vamos passar a consumir apenas produtos de agricultura biológica” (…). E curiosa- mente, eu nunca mais fiquei doente nem as minhas filhas. São as únicas crianças no infantário que passam o inverno sem estar doentes” Entrevistada 4, Licenciada, 3ª gravidez
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy MTY4OTk1