ICS Research brief 2019 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade
8 reconhecimento da importância do seu consumo, para muitas das gestantes a utilização destes produtos é percecionada como estando fora do seu alcance, seja por não estarem disponíveis nas lojas onde habitualmente fazem compras, seja pelo preço a que são vendidos. Uma estratégia usada por algumas mães é a de adquirirem em modo de produção biológico, os produtos que consomem com maior regularidade. “Por exemplo, aquilo que eu como mais procuro comprar biológico. Por exemplo os legumes para a sopa tento que sejam, não são a 100%, mas como como todos os dias, então procuro comprar cenouras e assim. Por exemplo uma manga ou uma papaia, que não são alimentos que coma todos os dias, já não fico tão atenta e não faço questão que seja um produto biológico. Mas por exemplo cenouras, curgetes, brócolos, esses legumes que eu uso numa base quase diária, tenho essa preocupação.” Entrevistada 1, Licenciada, 1ª gravidez “Os meus pais agora moram no Algarve e têm lá uma horta. Quando vou lá trago o que posso porque sei que é do mais puro, pois eles não colo- cam nada. Valorizo. Agora o meu cuidado pessoal em termos de alimen- tação, eu tento, mas não é viável, até em termos de orçamento, suportar a nossa alimentação apenas no biológico. Acho muito importante, mas às vezes não é mesmo fácil consumir produtos biológicos. Mas tento não consumir produtos enlatados e com muito bom aspeto, que parecem ter sido tratados, pois compreendo que não deve ser bom nem para o bebé nem para mim.” Entrevistada 11 – Licenciada, 1ª gravidez “No início da gravidez comprávamos mais produtos biológicos, íamos ao Biomercado, mas depois também fica muito pesado para a carteira, é muito mais caro. É uma diferença abismal. E na parte das frutas e legu- mes passamos a comprar na praça, porque sabemos que é um meio ter- mo. Não é tão mau como nos hipermercados, porque não leva frigorífico e essas coisas todas, mas sei que não são biológicos.” Entrevistada 10 – Licenciada, 1ª gravidez “É mais uma questão minha e algo que eu faço questão porque tenho esse cuidado, mas não foi da parte dos médicos. Praticamente como há uma grande discrepância no preço, compro as cenouras, compro os tomates cherry, que acho que já estão a um preço mais acessível. A fruta biológica é muito cara. Os limões tento que venham de alguém, os ovos já tento que sejam criadas ao ar livre ou os biológicos quando estão em promoção. E os leites tento que sejam biológicos.” Entrevistada 30, Mestre, 2ª gravidez “(…) não é fácil para quem tem uma casa cheia de gente ter esse cuida- do, isto porque é caro, é muito mais caro, a fruta biológica é cara. Tento ter algum cuidado com os locais onde compro, mas não é biológico. Com- pro na praça ou em mercearias mais específicas, com a Fruta Almeida. Nos supermercados é quando é precisa para já.” Entrevistada 15 – 12º ano, 2ª gravidez Mesmo em áreas onde o aconselhamento médico e de enfer- magem é mais comum em vários países da Europa, o facto é que o consumo de determinados peixes – vida longa – continua a não ser abordado com frequência. Uma larga maioria das ges- tantes entrevistadas não se recorda do tema ter sido abordado pelos profissionais de saúde e algumas delas obtiveram infor- mação sobre o tema por outras vias (leituras, pesquisas pessoais realizadas). “Nunca encontrei informação sobre peixe. Eu adoro atum e talvez tenha reduzido um pouco o consumo. Reduzi porque eu acho que comia em excesso. Não conheço o atum, nem conheço as propriedades do atum, nem nunca perguntei à minha médica. Consumia 2/3 latas por semana.” Entrevistada 14 – Mestre, 2ª gravidez O papel dos profissionais de saúde na opinião das mães Este enfoque também acaba por ser um resultado direto da abordagem dos profissionais de saúde ao tema. O testemunho das gestantes é claro na afirmação que os profissionais de saúde não abordam áreas como a proveniência dos alimentos (se são produzidos em modo de produção biológico ou não) ou quais- quer substâncias químicas que devam evitar em produtos do quotidiano. Mesmo nos casos da pintura do cabelo ou unhas, os profissionais de saúde nem sempre assumem uma postura de precaução sobre o tema. Deste contexto decorre que, na per- ceção das entrevistadas que já demonstram um maior conhe- cimento e perceção sobre o tema das substâncias químicas, os profissionais de saúde não abordam o tema e, mesmo quando questionados, tendem a assumir uma postura de desconsidera- ção das questões, mais do que da sua valorização e desenvolvi- mento. É ainda interessante verificar que por vezes são as pro- fissionais da área da estética que acabam por demonstrar maior sensibilidade ao tema. “Nunca tive dúvidas e a médica também nunca falou comigo. Nem champôs, nem nada. Só perguntei à minha médica sobre pintar o cabelo e fui eu que perguntei, ela não me falou em nada. Ela disse-me que sim, que podia pintar o cabelo à vontade. Acho que a minha médica nisso é muito liberal, não sei se isso é bom ou mau, mas é. Por acaso ainda não pintei porque não tive necessidade, mas quando tiver essa necessidade, vou e pinto, não tenho medo, digamos assim.” Entrevistada 12 - Licenciada, 1ª gravidez “Eu faço madeixas e só fiz uma vez durante a gravidez e agora tenho que fazer outra vez porque já não me estou a sentir nada bem em termos estético. Perguntei à médica e ela disse-me “sem problemas” e eu, “então e as tintas”, “faça o que quiser”. Assim como pintar as unhas, tinha geli- nho. A médica disse que não tinha problema nenhum, mas eu não me senti confortável (…). Fiz efetivamente as madeixas em agosto, e então perguntei à cabeleireira, que não é uma fonte fantástica, pois elas que- rem vender. Ela disse-me logo, “não te vou fazer muitas vezes”. Ela disse- -me logo que “posso fazer-te madeixas, mas uma ou duas vezes, pois não quero estar a expor-te a estes químicos, nem a este ambiente”.” Entrevistada 11 – Licenciada, 1ª gravidez
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