A Transição Alimentar na AML_Final

20 21 2.1. PORQUÊ FAZER A TRANSIÇÃO ALIMENTAR NA AML? Todos entendemos que alimentarmo-nos faz parte dos procedimentos essenciais à vida, tal como respirarmos. O que não é de tão fácil entendimento é que entre o sítio onde o alimento é produzido e o chegar-nos ao prato, há uma imensa teia de interações e de atores a que chamamos sistema alimentar. Comecemos por atender a três escalas onde se coloca o alimento e o seu sistema alimentar, pressupondo, por isso, diferentes abordagens. A primeira, mais individual e corporificada, refere-se à ingestão de alimentos e a sua metabolização no estômago, como fonte de energia e bem-estar ao corpo que os ingere. Esta escala é muito cara à medicina e às ciências da nutrição que investigam as relações entre o alimento ingerido pelo organismo/corpo e as doenças subsequentes, procurando o bem-estar e a saúde humana. A segunda escala, associada ao prato, pode compreender, por exemplo, a apropriação sociocultural dos alimentos, traduzida no gosto alimentar partilhado nos códigos identitários, gastronómicos e culinários de uma determinada região. Esta escala tem um leque disciplinar de interesse diversificado, desde as ciências sociais e humanas, como a sociologia, a antropologia, etnologia, geografia cultural e a história, até ao turismo, hotelaria, restauração e cozinha. A terceira escala é a do território e, neste caso, o ato de nos alimentarmos tem atualmente implícito um dos mais fortes exercícios de cidadania, com evidentes impactes territoriais. É nesta escala, ou se quisermos, nesta esfera de conhecimentos, que se coloca o planeamento alimentar como o processo que define e organiza o funcionamento do sistema alimentar nas suas múltiplas dimensões: produção, transformação, distribuição, consumo e desperdício alimentar, tendo em vista a eficiência funcional e territorial do sistema, de acordo com princípios ecológicos, de circularidade e de proximidade relativamente à economia gerada. Nesta escala, a necessidade de um olhar inter e transdisciplinar é especialmente relevante, recrutando desde geógrafos, arquitetos paisagistas, designers, especialistas em planeamento do território, botânicos, biólogos, agrónomos, gestores de logística, especialistas em consumo, engenheiros e cientistas alimentares para uma visão holística da multidimensionalidade da alimentação. Na verdade, esta abordagem pretende responder à questão fundamental de como alimentar uma cidade, uma área metropolitana ou, em última instância, de como alimentar um país, e quais as dinâmicas urbanas, periurbanas e rurais que deverão estabelecer-se com este propósito. As respostas necessárias num contexto de crise global exigem novas abordagens, nomeadamente ao nível da relocalização do sistema alimentar em articulação com outros sistemas territoriais. É neste contexto que o planeamento alimentar deverá traduzir-se em metodologias inovadoras e criativas de ordenamento do território que permitam pôr em prática uma visão verdadeiramente integrada, através da qual se compatibilizem aptidões e usos numa abordagem ecológica, adaptada às alterações climáticas e promotora de serviços de ecossistemas, se planeiem equipamentos e infraestruturas focados na descarbonizarão da economia e se criem mercados que promovam o desenvolvimento local e a identidade cultural. O resultado de síntese deverá, assim, traduzir-se numa melhor qualidade da paisagem, do ambiente e do bem-estar das pessoas. Para este efeito, o planeamento alimentar poderá ser considerado no âmbito do ordenamento e gestão do território, quando tratado no quadro dos seus respetivos instrumentos legais, como pode resultar da iniciativa de um conjunto de atores nacionais, regionais ou locais que reconheçam este tema como premente para responder aos desafios sócioecológicos da atualidade. De uma ou de outra forma, o planeamento alimentar deverá ser uma das peças da transição alimentar para a sustentabilidade, associado a programas de ação transformativos, com impacto real e positivo sobre o território, a sociedade e a economia, contribuindo para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2030 definidos pelas Nações Unidas em 2015. Pavilhão de Produtores. Mercado Abastecedor da Região de Lisboa (MARL).

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