ICS Policy Brief 2020 - Observatório Permanente da Juventude

4 Mas NEEF é apenas um acrónimo de um constructo estatístico, muitas vezes banalizado a nível académico e político, e que esconde múltiplas realidades, ainda que a sua composição se desagregue num conjunto diversificado de subgrupos (Eurofound, 2016). Embora existam fragilidades que são transversais a todos os jovens em condição NEEF, o impacto e pre- valência dessas fragilidades difere de acordo com os contextos territoriais em que habitam. Ser jovem em condição NEEF em meio rural significa, à partida, ter menos recursos educativos, formativos, sociais e eco- nómicos, e estar em risco ou em situação de pobreza decorrente desta desvantagem persistente e, muitas vezes, geracionalmente reproduzida (Corbett, 2013; Shucksmith, 2004; Rönnlund, 2020). As suas oportunidades de emprego tendem a ser mais escassas, o acesso à diversidade de recursos públicos é mais limitado e as redes de suporte cingem-se sobre- tudo à família (Simões, 2018; De Hoyos & Green, 2011), que muitas vezes tende a desvalorizar o papel da escola (Sadler et al., 2014). Por sua vez, as políticas públicas e as intervenções locais apresentam muitas vezes a tendên- cia de estimular a permanência dos jovens nas zonas rurais através da promoção de atividades económicas ligadas à agricultura, o que vai frequentemente ao arrepio das suas expectativas e aspirações: nem sempre estas são consideradas profissionalmente atrativas pelos jovens destes meios, rotulados com uma identidade rural apesar das suas identidades serem construídas nummundo globalizado demobilidade virtual (Juvonen & Romakkaniemi, 2019; Cuervo and Wyn, 2017). Estas barreiras institucionais, familiares e, muitas vezes, simbólicas, fazem com que tenham maior difi- culdade em reverter as suas vulnerabilidades estru- turais, restringindo ainda mais as suas oportunida- des e as suas expetativas educacionais e profissionais (Carcillo et al., 2015; Singh & Dika, 2003; Juvonen & Romakkaniemi, 2019; Rönnlund, 2020). JOVENS EM CONDIÇÃO NEEF EM ÁREAS RURAIS NA EUROPA: ESPECIFICIDADES DO CASO PORTUGUÊS Ser jovem em condição NEEF em meio rural é um duplo desafio que coloca os jovens em maior risco de exclusão social, pelo facto de disporem de oportunida- des de educação, formação e emprego mais limitadas que os jovens que residem em meios urbanos. Efetivamente, de acordo com os dados do Eurostat (2020a), em 2018 cerca de ¼ da população residente nos 28 Estados-Membros da União Europeia (UE28) em áreas rurais (23,5%), encontrava-se em risco de pobreza ou exclusão social , proporção superior ao observado junto dos que residiam em áreas urbanas (cidades - 22%; vilas e subúrbios – 19,9%). Em Portugal ainda que, com- parativamente aos valores registados em 2013, ano em que a crise económica atingiu o seu pico, tenha existido uma diminuição da incidência da pobreza ou exclusão social nas áreas rurais (26,3% em 2018, menos 5,3 p.p. face aos valores registados em 2013), continuava em 2018 a existir uma diferença significativa face ao risco de pobreza existente nas áreas urbanas (cidades-20%; vilas e subúrbios - 19,8%), com uma amplitude maior do que a verificada na média da UE28. Em Portugal é também entre a população jovem que se regista uma maior incidência de pobreza ou exclu- são social, sobretudo entre os mais jovens (16-24 anos: 25,6% em 2018), e com maior impacto entre os que já não vivem com os pais (34,8%) (Eurostat, 2020b). Ainda que, face aos valores registados em 2013, se tenha regis- tado uma diminuição significativa desse risco, tanto no caso dos jovens que ainda vivem com os pais (menos 6,8 p.p.), como nos que já têm autonomia residencial (menos 13,6 p.p.) (Eurostat, 2020c), os jovens continuam a ser dos grupos etários mais desprotegidos, onde mais se fazem sentir os efeitos estruturais e conjunturais das dinâmicas demográficas e do mercado de trabalho. Os jovens que vivem em áreas rurais encontram-se ainda mais vulneráveis à situação (ou em risco) de pobreza e exclusão social, como evidencia um conjunto de indica- dores de educação e do mercado de trabalho, que anali- saremos em seguida. Nota: Os dados apresentados reportam-se ao período de 2009 a 2019, anterior à saída do Reino Unido da UE, sendo por isso relativos à média dos 28 Estados Membros. Educação No âmbito da Estratégia Europa 2020, definida pela UE para o período de 2010-2020, foi projetada a meta de reduzir a taxa de abandono escolar precoce (AEP) para os 10% até 2020. Na última década, Portugal tem vindo a reduzir sig- nificativamente a sua taxa de AEP (ou seja, a percenta- gem de pessoas entre os 18 e os 24 anos que deixou de estudar sem ter completado o secundário) e a aproxi- mar-se daquele valor, registando em 2019 uma taxa de Os jovens que vivem em áreas rurais têm uma maior probabilidade de abandonar a escola precocemente.

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