ICS Research brief 2019 - Observatório de Ambiente, Território e Sociedade
3 Caracterização das amostras As gestantes Para o projeto foram entrevistadas 30 gestantes, tendo ain- da sido realizadas entrevistas já após o nascimento dos bebés a cerca de metade das entrevistadas (15). De facto, ao contrário da fase de gestação onde havia maior disponibilidade para respon- der a entrevistas, após o nascimento, compreensivelmente, a gestão do tempo tornou-se mais complexa, associada ao facto de várias gestantes estarem de baixa aquando da primeira entre- vista, mas já estarem em plenas funções profissionais aquando da realização da segunda entrevista. As gestantes entrevistadas possuíam, na sua larga maioria, o ensino superior, eram ativas profissionalmente e cerca de metade estavam grávidas pela pri- meira vez. Os profissionais de saúde O envolvimento dos profissionais de saúde da área da medici- na e da enfermagem não foi fácil de conseguir, visto que grande parte das Associações profissionais e mesmo a Ordem dos Médi- cos, demonstraram pouca disponibilidade para apoiar a divulga- ção do inquérito dirigido aos profissionais. A exceção foi mesmo a Ordem dos Enfermeiros que, após um processo de avaliação interna, aceitou divulgar o inquérito na sua página, o que per- mitiu recolher um número significativo de respostas (cerca de um terço). As restantes respostas foram recolhidas presencial- mente em congressos e encontros na área da saúde. No total foram inquiridos 306 profissionais de saúde, maioritariamente da área da enfermagem – 85%. Cerca de 96% dos inquiridos são mulheres, sendo os escalões etários mais frequentes entre os 31 e os 45 anos (57%) e entre os 46 e os 60 anos (31%). Quase 90% tra- balham no serviço nacional de saúde. A nível internacional tem-se intensificado o debate científico e político em torno do impacto que algumas substâncias quí- micas utilizadas em produtos de uso quotidiano podem ter na saúde humana. As crianças são particularmente vulneráveis a fatores de ris- co de origem ambiental dadas as suas características fisiológi- cas e comportamentais. Em 2004, no âmbito da 4ª Conferência Ministerial sobre Ambiente e Saúde, os países da UE assumiram o compromisso de implementar medidas visando a redução dos riscos de doença resultantes da exposição a riscos ambientais, em particular, durante a gestação, infância e adolescência. Esta tomada de consciência da vulnerabilidade associada a alguns momentos específicos da vida humana à influência de fatores ambientais, levou, na última década, a várias tomadas de posição, por parte dos profissionais de saúde, sobre os potenciais riscos ambientais para a saúde das crianças. O apelo foi sempre no sentido de se intervir de forma pedagógica, aconselhando as famílias, em particular as grávidas, sobre alguns cuidados a ter, sendo que em alguns casos as propostas foram mais longe e apelaram a uma maior intervenção das políticas públicas, no sentido de reduzir os fatores de risco (AAP, 2011 e 2018; ACOG, 2013; RCOG, 2013). Contudo, estudos sobre as práticas de aconselhamento dos profissionais de saúde sobre o tema apontam para a sua pou- ca familiaridade, o reconhecimento da falta de preparação para responder a questões sobre o tema, o pouco tempo disponível por paciente, a gestão dos temas prioritários a abordar e a incer- teza sobre o grau de perigo subjacente às exposições ambien- tais a substâncias químicas, como principais argumentos para a abordagem do tema ser pouco frequente (Stotland et al, 2014). Em Portugal, a confiança das mães no aconselhamento médi- co e de enfermagem ao longo da gestação e após o nascimento parece ser significativa (Nave e Fonseca, 2012), corroborando a perspetiva de que os profissionais de saúde se estão a tornar os guardiões morais da parentalidade contemporânea. A perceção sobre o impacto de diversos fatores de risco do quotidiano na saúde das crianças parece ser pouco marcada (Nave e Fonseca, 2012), tendência confirmada por estudos que indicam que em Portugal é menos comum que se reconheça a presença de subs- tâncias químicas em produtos como cosméticos, brinquedos e alimentação e é mais comum que se confie na segurança das substâncias químicas colocadas no mercado, do que na média da UE28. A tendência mantém-se quanto à preocupação com o impacto que os produtos químicos podem ter na saúde. Mas o contexto de “maternidade intensiva”, onde a criança é o elemento central da preocupação da mãe e onde a valida- ção externa por parte de especialistas assume um lugar central, é propícia à integração deste tipo de preocupações, particular- mente no âmbito de uma sociedade de risco, onde a criança ten- de a ser perspetivada como vulnerável. Neste contexto, a cultura da parentalidade contemporânea integra o risco de forma muito marcada em áreas como as da alimentação, nomeadamente em relação à amamentação, ao consumo de peixe ou ao consumo alimentar de forma genérica, associado a questões como a obesi- dade ou ao consumo de álcool. A perceção da presença de subs- tâncias químicas em produtos (perfumes, detergentes, vestuá- rio) ou situações do quotidiano tem sido menos estudada, mas quando o é os resultados apontam para a necessidade de apro- fundar a análise. Isto num contexto de enorme pressão por parte de uma cultura de consumo associada à maternidade. PARTE 1 – ENQUADRAMENTO DO PROBLEMA DAS SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS USADAS NO QUOTIDIANO
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