ICS Portugal Social em Mudança_2021

66 Em Portugal, o impacto da pandemia na polarização política e no desempenho estatal foi menor do que o registado nos países vizinhos e no mundo, em geral. As razões identificadas neste trabalho são quatro: baixa polarização política antes da pande- mia, elevada estabilidade governamental durante o período de análise, um Estado centralizado e decisores competentes. Em primeiro lugar, a polarização política tem demonstrado ser, ao mesmo tempo, uma consequência da pandemia 2 e um fator que dificulta a sua gestão 3 .Em Portugal, a distribuição do voto e a atitude das elites têm-se mantido moderadas, com um partido populista (Chega) a ganhar um único assento parlamentar pela primeira vez em 2019. Em segundo lugar, a estabilidade gover- namental foi produto de dois fatores: por um lado, a melhoria no resultado eleitoral do partido governante (PS) em 2019 relativamente a 2015, o que lhe permitiu autonomizar-se dos dois partidos à sua esquerda; por outro, a moderação explícita do principal partido da oposição (PSD), que apoiou, desde o início, as decisões de gestão da pandemia do governo, quer no parlamento, quer na comunicação social 4 .Em terceiro lugar, o Estado português é unitário, tendo isso favorecido a gestão O impacto da pandemia na polarização política e no desempenho estatal foi menor do que o registado nos países vizinhos e no mundo em geral. O Estado português é unitário, tendo isso favorecido a gestão dos confinamentos, mas também do programa de vacinação. Esta centralização estatal contrasta com a situação em estados federais, como a Espanha, o Brasil ou os Estados Unidos, onde a resposta do nível nacional foi frequentemente contraditada pelos governos subnacionais. dos confinamentos, mas também do programa de vacinação. Esta centralização estatal contrasta com a situação em Estados federais ou mais descentralizados como a Espanha, o Brasil os Estados Unidos ou Itália, onde a resposta do nível nacional foi frequentemente contraditada pelos governos subnacionais 5 . Finalmente, a elevada competência técnica dos decisores é uma caraterística dos governos portugueses com alguma tradição e reafirmada durante a pandemia, quer ao nível do governo, quer ao nível da implementação das políticas no território. O caso mais revelador é o do almirante Henrique Gouveia e Melo, um comandante militar de elite, que foi convocado para conduzir o Programa Nacional de Vacinação, transformando-se para alguns num herói popular 6 . 2 Encuesta global: la pandemia agravó la polarización en todo el mundo. 3 Gregoria Luis Miranda. 2021. Entrevista a Lucas González. Tramas. Revista de Política, Sociedad y Economía (http://tramas.escueladegobierno . gob.ar/articulo/entrevista-a-lucas-gonzalez/ ). 4 Lusa. Rui Rio: “Nós não somos de direita. Nós somos do centro, somos moderados”. Público, 5 de abril, 2019. 5 Giraudy, Agustina; Niedzwiecki Sara, Pribble Jennifer. “How Political Science Explains Countries’ Reactions to COVID-19”. Americas Quarterly, 30 de abril, 2020. 6 Matos, Vítor e Gomes Hélder. Gouveia e Melo: retrato de um “gajo duro” que passou mais de 800 dias fechado em submarinos. Expresso, 19 de Junho, 2021. referências bibliográficas Camerlo, Marcelo, Juan Rodríguez-Teruel e Antonino Castaldo. 2021. SEGov Project: South European Governments. ICS-ULisboa and Universitát de Valéncia. Rodríguez Teruel, Juan, José Real Dato e Eloísa del Pino. 2021. «The politics of the COVID-19 in multi-level Spain: how government and experts responded to the crisis». South European Society and Politics, vol. 26. Silva, Patrícia, Edna Costa e João Moniz. 2021. «A Portuguese miracle? The politics of the COVID in Portugal». South European Society and Politics, vol. 26. Vicentini, Giulia, e Maria Tullia Galanti. 2021. «Italy, the sick man of Europe: political reactions across the centre and the peripheries, expert and public opinion during the COVID-19 crisis». South European Society and Politics, vol. 26. Conclusões V

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