ICS Portugal Social em Mudança_2021
57 continentais. A queda do consumo de combustível no transporte marítimo (figura 4.11) reflete o mesmo tipo de constrangimentos, quer nas atividades de recreio (incluindo cruzeiros internacionais), quer no tráfego de mercadorias. Por exemplo, a queda do consumo de produtos petrolíferos gerou, obviamente, menor necessidade do seu transporte, feito geralmente por via marítima. Por outro lado, a disrupção nas cadeias internacionais de forne- cimento da indústria no início da pandemia também contribuiu para a queda do transporte de mercadorias, sendo ainda incerto até que ponto isso terá reflexos numa eventual retração geográfica dessas cadeias. O tipo de mercadorias que nos chegam por via marítima, no entanto, terá induzido uma curva menos obviamente ligada ao ritmo dos confinamentos, registando-se as maiores quebras em setembro e outubro de 2020. Da rápida disseminação da epidemia decorreu, a partir do início de 2020, um tipo de resposta das autoridades públicas que, em regra, passou por restrições ao contacto social e, consequente- mente, às deslocações. A «nova normalidade» induziu alterações substanciais nas práticas quotidianas, quer ao nível individual e doméstico, quer ao nível das atividades económicas e profissionais, desencadeando uma crise multidimensional cujos contornos são ainda incertos. Seja como for, a queda geral dos consumos ener- géticos não merece grande dúvida, como não merece dúvida a transferência de custos energéticos das empresas e serviços para a esfera doméstica. As alterações nos consumos de energia surgiram, invariavelmente, associadas aos ritmos de confinamento residencial e de restrição ao exercício de muitas atividades. A tendência geral foi de redução acentuada dos consumos, quer no que respeita à eletricidade, quer no que respeita aos combustíveis de origem fóssil para transportes. Neste panora- ma, a exceção foi o consumo doméstico de eletricidade, que disparou 13,3% entre 2019 e 2020. É certo que este aumento da fatura energética das famílias pode, pelo menos em parte, ter sido compensado por poupanças no combustível que não terá sido gasto nas habituais deslocações casa-trabalho. Mas no caso português, onde as desigualdades ainda são significativas e uma faixa importante da população ou não possui ou não utiliza o automóvel para as suas deslocações quotidianas, essa poupança dificilmente aconteceu. Pelo contrário, estes cidadãos viram-se, muito provavelmente, forçados a assumir custos de um serviço que, pelo menos em parte, não utilizaram, pagando por um título de transporte mensal que, independentemente do confinamento (sem data pré-estabeleci - da), não poderiam deixar de adquirir. Nestes casos, portanto, ao aumento da fatura da eletricidade terá correspondido, na melhor das hipóteses, a poupança do custo do passe dos transportes coletivos, o que é pouco, sobretudo numa época (inverno) em que a necessidade de aquecer as habitações redobrava. O rápido avanço da vacinação permite vislumbrar uma nor- malização das atividades sociais que deverá reverter esta situação. Fica claro, no entanto, que as desigualdades sociais se exacerbaram com a pandemia, fazendo aumentar os fatores que potenciam a pobreza energética. Se pensarmos na provável efemeridade do efeito mitigador nas emissões de CO 2 , ou no exponencial cres- cimento da utilização de material descartável que se instalou nos hábitos quotidianos, o balanço não se antevê positivo também para o campo ambiental. Conclusão IV Direção-Geral de Energia e Geologia. Estimativas rápidas de consumo energético de março de 2020 a abril de 2021, Lisboa, Ministério do Ambiente e Ação Climática, https://www.dgeg.gov.pt/pt/estatistica/energia/ publicacoes/estimativas-rapidas-de-consumo-energetico/. Horta, A., e L. Schmidt. 2021. Pobreza Energética em Portugal (Research Brief) . Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, Observa – Observatório de Ambiente, Território e Sociedade. IEA. 2021. «Global energy review», Paris, IEA, https://www.iea.org/reports/ global-energy-review-2021. Kylili, A., N. Afxentiou, L. Georgiou, C. Panteli, P. Z. Morsink-Georgalli, A. Panayidou, C. Papouis e P. A. Fokaides. 2020. The Role of Remote Working in Smart Cities : Lessons Learnt from COVID-19 Pandemic . Energy Sources . Part A, «Recovery, utilization, and environmental effects». Rodrigues, C.F., R. Figueiras, V. Junqueira. 2016. Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal: As Consequências Sociais do Programa de Ajustamento. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos. Schmidt, L., e J. Guerra. 2018. «Sustainability: dynamics, pitfalls and transitions». In Changing Societies : Legacies and Challenges – The Diverse World of Sustainability , eds. A. Delicado et al. Lisboa: Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. referências bibliográficas
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy MTY4OTk1