ICS Portugal Social em Mudança_2021

50 Figura 4.1 Evolução do PIB, procura de energia primária e emissões de CO 2 na União Europeia Fonte: IEA 2021. No ano de 2020 e, em particular, no inverno de 2020/2021 o mundo e a União Europeia, num contexto em que Portugal não constituiu exceção, foram particularmente atingidos pela COVID-19, levando a confinamentos e bloqueios relevantes e, desse modo, a quebras socioeconómicas significativas. De 2019 para 2020, o PIB nos países da União Europeia (UE) caiu 3,5%, a procura global de energia 4% e as emissões de CO 2 5,8%. Para 2021, no entanto, e tendo por base os resultados do 1.º trimestre deste ano, espera-se alguma recuperação do PIB (2,2%) e estabilização na procura de energia primária (mais 0,5%) e, talvez mais importante para o que interessa aqui realçar, uma retração ligeira das emissões que, na melhor das hipóteses, rondará 1,2% abaixo dos níveis de 2019 (figura 4.1). A verificar-se este cenário de recuperação, estaríamos pe - rante um mais eficiente uso de recursos energéticos potenciado pela pandemia. No entanto, se a atividade de transporte e, em particular, as viagens internacionais retornarem aos níveis ante- riores à COVID-19 (como poderá vir a acontecer no final de 2021), as necessidades globais de energia alinhar-se-ão com a recuperação económica, sendo nesse caso inevitável um aumento próximo de 2% relativamente a 2019, com as consequentes repercussões nas emissões de CO 2 (IEA, 2021). Contudo, o cenário de 2020 foi bastante diferente. Assim, se atentarmos, em particular, nas emissões de CO 2 relaciona- das com a energia, na UE, entre 2019 e 2020, o seu volume teve uma queda sem precedentes: quase 2 Gt a menos (figura 4.2). 1 Como as emissões globais de CO2 voltaram ao padrão de crescimento anterior, no que diz respeito às alterações cli- máticas – se não houver políticas que contrariem esta tendência –, a situação não se perspetiva tão favorável como previam as avaliações feitas no auge da pandemia. 2 Para além destes efeitos ainda pouco claros, há outras im- plicações que importa analisar. Desde logo, ter-se-á assistido à transferência de pelo menos uma parte do consumo energético do setor produtivo (indústria e serviços) para o setor residencial (Kylili et al. 2020). Num curto período, a pandemia alterou a localização das atividades do quotidiano, que, em boa medida, se transferiram dos escritórios e escolas para a esfera residen- cial, contribuindo para intensificar os consumos domésticos de eletricidade. Muitos assalariados viram-se obrigados a adaptar-se ao teletrabalho e a adequar as suas habitações às necessidades profissionais, assumindo custos outrora suportados pelos seus empregadores (Kylili et al. 2020). Ao mesmo tempo, o confi - namento das populações e o consequente aumento da neces- sidade do consumo de energia no setor residencial tornaram ainda mais evidentes situações de pobreza energética (Horta e Schmidt 2021). Face à transferência dos consumos de energia dos locais de trabalho e escolas para a esfera residencial, parece-nos oportuna a reflexão sobre os padrões emergentes de gastos energéticos Figura 4.2 Emissões globais de CO 2 relacionadas com a energia (Gt CO 2 ) Fonte: IEA 2021. 2019 2020 2021 0 PIB Procura de energia primária Emissões de CO2 -3,5% -4,0% -5,8% 2,2 0,5 -1,2 28,7 31,5 (2007) (2021) (2009) 28,9 (2020) 33,0 ¹ Ainda que a um ritmo menor, as emissões globais prosseguiram e, por isso, o CO 2 acumulado na atmosfera continuou a aumentar, alcançando 412,5 partes por milhão em 2020, o que representa um novo máximo da nossa era, situando-se cerca de 50% acima dos valores pré-revolução industrial (IEA 2021). 2 Quando este texto foi escrito (junho de 2021) ainda não existiam dados publicados sobre emissões de CO 2 em 2020 em Portugal. Procura de energia e emissões I

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