ICS Portugal Social em Mudança_2021

47 Este capítulo procurou fazer uma primeira abordagem das implicações da pandemia no processo de envelhecimento da população portuguesa, tendo em consideração as suas duas principais manifestações: o número de casos confirmados e os óbitos. Apesar de o número de infeções ser muito mais elevado do que o dos óbitos, é a mortalidade causada por Covid-19 que mais impacta sobre o processo de envelhecimento da população. Ao atingir desproporcionalmente os mais velhos, a pan- demia provoca uma redução do seu peso demográfico e, em consequência, uma travagem, pelo menos temporária, no en- velhecimento populacional. A estrutura etária rejuvenesce um pouco devido, não ao crescimento da natalidade, como seria desejável, mas à amputação dos seus escalões mais velhos. Como este efeito se estende a todo o território nacional, os municípios mais envelhecidos, como os dados sugerem, podem apresentar uma quebra, ou pelo menos uma desaceleração, do crescimento da população idosa, tanto em termos absolutos como relativos, embora a relação entre a mortalidade por Covid-19 e a estrutura etária dos municípios esteja longe de se sobrepor completamente. Outro impacto da mortalidade tem a ver com a longevidade. Como o grupo de 85 e mais anos é o mais afetado, isto provoca uma diminuição do índice de longevidade, que expressa o peso dos mais velhos no conjunto da população de mais de 65 anos. A longevidade, ou seja, o crescimento mais rápido do grupo mais velho, em comparação com os outros grupos etários de 65 e mais anos, que é (ou era) uma das tendências do envelhe- cimento da população portuguesa, pode ter sido também posto em causa, mesmo que apenas temporariamente. Ainda é cedo para determinar se as implicações da Covid-19 têm um efeito duradouro ou se são rapidamente anuladas, assistindo-se, a breve trecho, à restituição das tendências anteriores. O último ponto a assinalar, ainda que, neste caso, seja difícil falar em contração ou prolongamento das tendências atuais, refere a sobremortalidade masculina em consequência da pandemia, que agravou o desequilíbrio entre homens e mulheres, particu- larmente no grupo etário de 85 e mais anos, acentuando deste Conclusão IV modo a feminização do envelhecimento em Portugal. Embora a feminização seja, desde há muito, uma das suas características mais evidentes, o seu reforço não configurava o cenário mais previsível. Apesar de as consequências da mortalidade por Covid-19 seremmais facilmente identificáveis, na medida em que impactam diretamente na estrutura populacional e territorial do país, isto não significa que as infeções não tenham também implicações, embora neste caso a existência de informação seja menos evi- dente. As infeções têm efeitos inegáveis na morbilidade e nas condições de saúde da população idosa, podendo, inclusive, afetar a sua longevidade e contribuir para alimentar um excesso de mortalidade nos tempos mais próximos. Mas, mesmo que não se vá tão longe, interessaria ver em que medida a pandemia afetou a qualidade de vida dos mais velhos. Por último, a qualidade de vida é ainda atingida por outra implicação da pandemia, ainda que não se manifeste em infeções ou em óbitos. A dimensão em causa são as medidas preventivas adotadas, especialmente o confinamento. Ao isolar os mais velhos, restringiu-se a vida social e diminuíram-se os contactos sociais. Ainda que esta situação não possa ser generalizada, havendo certamente casos em sentido inverso proporcionados pela comunicação online, que permitiu estabelecer contactos onde antes não existiam e reforçar outros, a penúria de con- tactos presenciais experimentada por todos ou quase todos os idosos não pode deixar de ter reflexos na saúde mental, afetando, consequentemente, as condições pessoais e sociais do envelhecimento em Portugal. referências bibliográficas DGS. 2021. «Microdados Covid-19. Dados disponibilizados para efeitos de investigação», ficheiro 2021-05-25_data_academia.xlsx. INE. 2021. «População residente (n.º) por local de residência (NUTS - 2013), sexo e grupo etário; anual, INE, estimativas anuais da população residente», https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_ indicadores&indOcorrCod=0008273&xlang=pt&contexto =bd&selTab=tab2, consultado em 15 de junho de 2021. STMF. 2021. «Short-term mortality fluctuations», https://mpidr. shinyapps.io/stmortality/ , consultado em 15 de junho de 2021.

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