ICS Portugal Social em Mudança_2021

38 se bem que a um ritmo mais pausado e com uma extensão bem mais limitada, à medida que a vacinação for avançando. Seja como for, o excesso de mortalidade é já uma das marcas indeléveis da pandemia. Se bem que diferentemente de outros surtos, a mortali- dade associada à pandemia Covid-19 manifesta-se sobretudo nos escalões superiores da estrutura etária, cujos contornos se começam a deslindar a partir dos 65 anos. Os mais velhos, sobretudo os de idade mais avançada, foram mais fustigados em termos de incidência e, em particular, de mortalidade do que os outros grupos etários. A idade avançada, isto é, a longevidade, constituiu-se assim noutra marca indelével da pandemia. No entanto, o aumento de mortalidade por Covid-19, que contraria a longevidade, tem especial relevância numa sociedade envelhecida, como a portuguesa. Ainda que os valores finais só possam ser apurados quando a pandemia for considerada extinta, a informação disponível permite desde já indagar se o impacto da mortalidade alterou ou, pelo menos, provocou flutuações nas tendências de envelhecimento da população. A redução do grupo etário mais velho tem por consequência imediata travar o proces- so de envelhecimento, dando azo a um certo rejuvenescimento da estrutura populacional pelo menos no curto prazo. É menos clara a distribuição deste impacto no território. Pode supor-se que a mortalidade tenha afetado mais fortemente determinadas áreas do país, nomeadamente os municípios de estrutura etária mais envelhecida, pelo que, nesses, o seu efeito poderá ser mais acentuado. De modo similar, a informação disponível indica que a mortalidade masculina esteja a ser superior à feminina, apesar de as mulheres estarem bastante mais representadas nos esca- lões etários mais velhos. A ser assim, dependendo da extensão dos efeitos, a mortalidade terá, provavelmente, acentuado a feminização do envelhecimento na sociedade. Este capítulo propõe-se considerar alguns dos efeitos que a pandemia Covid-19 estará a provocar nas tendências de enve- lhecimento na sociedade com base na informação disponibilizada pela Direção-Geral de Saúde para efeitos de investigação. A base de dados usada contém informação sobre 846 245 casos confirmados de infeção por Covid-19 verificados entre março (11.ª semana) de 2020 e maio (25.ª semana) de 2021. Embora dela conste outra informação, apenas se retiveram no âmbito da análise realizada variáveis de natureza sociodemográfica, a saber: género, idade, óbitos e local de ocorrência. O capítulo divide-se em quatro partes. Começa-se por traçar o perfil da infeção nos três segmentos considerados do grupo mais velho (65-74, 75-84 e 85 e mais anos), por comparação com os restantes grupos etários, tendo em conta a distribuição por género. De seguida, examina-se o excesso de mortalida- de nesses três segmentos etários, tendo por base a média de mortalidade por todas as causas registada entre 2015 e 2019, levando também em consideração a distribuição por género. Na terceira parte procura-se identificar os impactos territoriais da incidência dos casos confirmados de infeção e da mortalidade por Covid-19, tomando o município por referência. Por último, em jeito de conclusão, sistematizam-se os principais resultados e assinalam-se outros impactos da pandemia Covid-19 na qualidade de vida e na saúde das pessoas mais velhas, que devem também ser considerados na medida em que afetam as condições de envelhecimento na sociedade portuguesa. Cerca de 80% dos 846 245 casos confirmados acontecem abaixo de 65 anos, verificando-se o oposto em relação aos óbitos, com mais de 93% dos 16 397 óbitos acima daquele limiar.

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