ICS Portugal Social em Mudança_2021

35 A crise pandémica traduziu-se na esfera educativa por dois processos distintos. Por um lado, acelerou o processo de mudança para a digita- lização, que já se vinha sentindo com uma progressiva introdução de estratégias pedagógicas (por exemplo, a gamification ) e suportes mediáticos em diferido (a utilização de apps ) em alguns contextos escolares, mas não generalizado a tão larga escala e a tantos níveis de ensino. A transição abrupta de um regime presencial para o ensino remoto de emergência e ainda a frequência de aulas presenciais, de acordo com as regras de saúde pública, exigiram de todos (professores, alunos e famílias) um enorme esforço de adaptação, mas não deixaram de ter efeitos perturbadores no processo de ensino-aprendizagem. A maioria dos alunos dos diversos níveis de ensino indicou estar a aprender menos durante as aulas à distância, a que não serão alheios o cansaço provocado pelo aumento do tempo de ecrã em aulas síncronas e a falta de convívio e de socialização com os pares. Por outro lado, a crise pandémica revelou as fragilidades e desi- gualdades dos vários sistemas educativos, que, embora conhecidas, se exacerbaram durante este período. Entre elas, destacam-se o acesso a equipamentos e à internet, indispensáveis para o ensino remoto, cuja universalidade não estava assegurada em todos os agregados e regiões do país antes da pandemia (CNE, 2021). Mas a desigualdade revelou-se ainda na falta de literacia digital, devido ao fosso intergeracional de competências nesta área. Os alunos de agregados sem equipamentos digitais em casa são também aqueles cujos pais terão tido mais dificuldades em apoiar o estudo em casa. Assim, o ensino remoto de emergência terá aprofundado desigualdades de origem, mantendo as vantagens para os alunos provenientes de agregados familiares com maior escolarização. Também os professores acusaram lacunas de formação nesta área, ao terem de adaptar metodologias e materiais de ensino para o digital. Finalmente, se o ensino superior pressupõe maior autonomia de aprendizagem do aluno, também sofreu com a dificuldade de transição de certas áreas curriculares para o digital, tais como as artísticas e laboratoriais. No entanto, importa igualmente sublinhar as vantagens que o ensino remoto de emergência potencialmente oferece. De facto, pode trazer assaz oportunidades ao ensino escolar e superior, desde logo na concretização de mais ofertas escolares em territórios que delas carecem, como o interior do país, e numa maior articulação com contextos e necessidades familiares e pessoais, às quais o regime de blended learning poderia responder da melhor forma. Assim, e porque o recente plano de recuperação das aprendiza- gens, «Plano 21-23 escola mais», já se assume como holístico na sua intervenção, integrando famílias, territórios e demais agentes educativos, e pretendendo maior inclusão do digital nos diferentes níveis de ensino, importa monitorizar de que forma as mudanças provocadas pela pandemia serão assimiladas pelas instituições no desenvolvimento de um ensino mais adequado às necessidades de alunos plurais para a construção de sociedades resilientes. Conclusão IV referências bibliográficas CNE. 2021. «Educação em tempos de pandemia», Conselho Nacional de Educação, Lisboa, consultado a 17 de junho de 2021, https:// www.cnedu.pt/content/iniciativas/estudos/Educacao_em_tempo_de_ Pandemia.pdf. DGES (2020). Reforço das vagas do concurso nacional de acesso. https://www.dges.gov.pt/noticia/reforco-das-vagas-do-concurso- nacional-de-acesso Eurofound. 2021. Education, Healthcare and Housing: How Access Changed for Children and Families in 2020. Luxembourg : Publications Office of the European Union. Eurofound. 2020. Living, Working and COVID-19, COVID-19 Series . Luxembourg: Publications Office of the European Union. Farnell, T., A. Skledar Matijević e N. Šćukanec Schmidt. 2021. The Impact of COVID-19 on Higher Education: a Review of Emerging Evidence . Luxembourg: Publications Office of the European Union (NESET report, doi: 10.2766/069216). Gouveia, R., S. S. Silva, A. N. Almeida, K. Wall, coord., M. M. Vieira, D. Carvalho e A. S. Ribeiro. 2021. Os Impactos Sociais da Pandemia: o Segundo Confinamento . Lisboa: ICS, Junho. OECD. 2020. Education Policy Outlook in Portugal, OECD Education Policy Perspectives . No. 21. Paris: OECD Publishing, https://doi. org/10.1787/0e254ee5-en. Reis, A. B., G. Lima, L. C. Nunes, P. Freitas e T. Alves. 2020. «Inquérito ensino à distância no contexto da pandemia. Resultados preliminares», Centro de Economia da Educação da Universidade Nova de Lisboa, https://kc-economics-of-education.github.io/ensino- distancia-resultados/ UNESCO. COVID-19 Impact on Education Tracker.

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