ICS Portugal Social em Mudança 2015
III Quanto à gestão do ambiente, entre 2000 e 2012, os resultados evidenciam um acentuado e crescente sentido crítico. Sucessos e insucessos da política ambiental: água e resíduos Com efeito, de acordo com os dados do ISSP aplicados em momentos diferentes (Figura 2.7), o valor da categoria que considera que «o país está a fazer muito pouco pelo ambiente» sobe de 41% para 58%. A este crescimento do sentido crítico corresponde um decréscimo, também assinalável, da categoria que melhor avalia o desempenho nacional (i.e., «o país está a fazer mais do que o suficiente») e, o que também não é de somenos, uma subida da capacidade crítica dos cidadãos portugueses, cuja taxa de não resposta é inferior em 5%, em 2012. Os portugueses parecem progressivamente mais conscientes e mais exigentes em termos ambientais, assim como relativamente ao desempenho do país e dos seus responsáveis nesta matéria. Posição que é, aliás, consonante com a desconfiança também crescente nas atuais capacidade e eficácia da ação do Estado no que respeita à política e à qualidade ambientais (Guerra, Schmidt e Valente, 2015). Relativamente aos cinco problemas ambientais que, do seu ponto de vista, mais os afetam, os portugueses elegem, antes de mais, a poluição do ar (66%), que fazem acompanhar pela deficiente qualidade/poluição (51%) e disponibilidade da água (48%). A par destas preocupações surge o aumento da quantidade de lixo (48%) e, já a alguma distância, o esgotamento dos recursos naturais (36%). Dir-se-ia, portanto, que os problemas de «primeira geração» são ainda dominantes nas preocupações dos portugueses, enquan- to os seus congéneres europeus (pelo menos se globalmente auscultados) parecem assumir posições mais abrangentes. De acordo com os dados expostos na Figura 2.8, não deixando de valorizar o mesmo tipo de questões, os europeus inquiridos no Eurobarómetro atribuem maior impor- tância ao impacto na saúde dos químicos usados no consumo diário (43% contra 26% entre os inquiridos portugueses); à redução/extinção de espécies (26% contra 14%); aos hábitos de consumo (24% contra 15%), ou, ainda, aos problemas urbanos (23% contra 14%). Em síntese, sendo ainda prematuro tirar conclusões quanto aos impactos da recente desaceleração do investimento no ambiente nas preocupações dos portugueses, o que para já podemos deduzir destes resultados é que o adiamento de soluções setoriais e a desfragmentação de alguns serviços públicos terão aumentado a desconfiança e o sentido crítico relativamente ao desempenho ambiental do país, com repercussões no aumento da preocu- pação com o ambiente e com a generalidade dos problemas ambientais, entre os quais se destacam, ainda, problemas de «primeira geração» que, do ponto de vista dos inquiridos, não estarão ainda resolvidos. Como vimos, a inquietação com os problemas ambientais manifestada é atualmente muito elevada e agudiza-se entre os portugueses. Importa, pois, avaliar o modo como esta preocupação se repercute nas práticas quotidianas. Com esse objetivo analisamos duas áreas fundamentais que, como constatámos acima, corresponderam a um maior investimento público ao longo das últimas décadas: i) o abastecimen- to de água, a drenagem e o tratamento de águas residuais e ii) a produção/reciclagem de resíduos. Quando considerados à escala da UE (Figura 2.9), os dados mostram que o abastecimento público de água atingiu valores confortáveis na generalidade dos países (com 100% na Holanda, em Espanha, em Chipre, na Hungria e em Malta), surgindo os países bálticos e, sobretudo, a Roménia como a grande exceção (61,9%). Pelo contrário, a cobertura por sistemas de drenagem de águas residuais está longe de estar resolvida em muitos países europeus (Figura 2.10), designadamente da Europa de Leste, com pior desem- penho em Chipre (29,8%), na Roménia (46,8%) e na Croácia (52,9%). Já em Portugal, o abastecimento de água às populações e o tratamento de RSU (Resíduos Sólidos Urbanos) são geralmente apontados como casos de sucesso das políticas de ambiente financiadas pelos fundos europeus. O mesmo acontece com a taxa de cobertura de esgotos e com o tratamento de águas residuais, verificando-se um aumento considerá- vel na década de 2000, na sequência do que já ocorria na década anterior com a aplicação dos fundos do II Quadro Comunitário de Apoio (1992-1999). 25
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