ICS Portugal Social em Mudança 2015

João Guerra, José Gomes Ferreira, Luísa Schmidt PORTUGAL NO CONTEXTO EUROPEU EM ANOS DE CRISE 2 O AMBIENTE EM PORTUGAL E NA EUROPA Nesta secção analisamos a evolução do investimento público em ambiente e quais as principais preocupações dos cidadãos relativamen- te a este tema, com enfoque no saneamento básico (águas e resíduos urbanos) por ter sido o sector de melhor desempenho. As políticas ambientais assumiram uma importância crescente ao longo das últimas décadas, sobretudo desde a adesão de Portugal à União Europeia em 1986. Contudo, a este “impulso externo” raramente correspondeu uma dinâmica interna capaz de acolher e implementar com sucesso e continuidade muitas destas medidas e políticas ambientais. Acresce que os ciclos políticos que se foram sucedendo tiveram, no caso português, uma influência determinante na maior ou menor relevância atribuída às questões ambientais, que se repercutiu na descontinui- dade das políticas definidas, no investimento que lhes foi atribuído e, consequentemente, na concretização das ações previstas. Talvez por isso, os portugueses se distingam dos restantes cidadãos da UE pela maior ênfase atribuída aos problemas ambientais básicos, considerados de «primeira geração», ligados nomeadamente ao saneamento, em detrimento dos problemas designados de «segunda geração», como são os casos das alterações climáticas, dos recursos naturais e dos hábitos de consumo. Também no âmbito das práticas ambientais, estudos recentes demonstram que os portugueses são menos ativos do que a média dos cidadãos da UE, apenas se aproximando destes nos hábitos de separação de resíduos (Valente e Ferreira, 2014). Tal revela que ainda subsistirá em Portugal uma leitura algo elementar das crises globais, tardando a impor-se uma visão mais integrada dos problemas ambientais no sentido de uma maior sustentabilidade. A crise económica e a mudança de ciclo político na viragem da década (2011) vieram desviar atenções e investimentos das questões ambientais, fragilizando as suas estruturas de gestão e desinvestindo até em questões-chave como a monitorização, a fiscalização e a informação ambientais. Como resultado, a já de si precária confiança dos cidadãos face ao Estado em matéria ambiental foi afetada, retomando-se uma apreensão até sobre temas que se julgavam resolvidos ou em vias de resolução como, por exemplo, a contaminação dos rios nacionais. 19

RkJQdWJsaXNoZXIy MTY4OTk1