A profeta e o orizicultor: inovações em religião, agricultura e género na Guiné Bissau

A profeta e o orizicultor: inovações em religião, agricultura e género na Guiné Bissau

Uma característica da "Costa da Guiné" (da Casamansa à Libéria) é o seu pluralismo ritual. O grupos etno-linguísticos que a habitam possuem uma miríade de cultos especializados, relacionados com o trabalho agrícola, a fertilidade e a cura. Inspirando-se em R. Fardon, P. Richards fez referência a essa proliferação de cultos como uma ‘involução ritual' ligada a um processo de etnogénese em contextos de busca generalizada de refúgio (Fardon 1988, Richards 2007). Segundo este autor, as comunidades dos mangais da Costa da Guiné (Jola, Balanta, Baga, Temne, etc) foram constituídas por ondas de refugiados vindos do interior, desenvolvendo no novo contexto ecológico um engenhoso sistema de cultivo de arroz. Esta proliferação de cultos é, porém, apenas um lado da moeda. Muito frequentemente a Costa é cenário de movimentos proféticos inovadores que, ao invés de dividir a comunidade num mosaico de pequenas cultos competitivos, provocam a sua união em torno de um culto monoteísta. Nos últimos tempos, o mais impressionante destes cultos foi o movimento Kyangyang surgido entre os Balanta da Guiné-Bissau. O movimento nasceu em torno de Ntombikte, uma jovem profetisa (ainda hoje activa), que em 1984 começou a anunciar os mandamentos de Deus.

Tratava-se de uma época de intensa crise social, política, ecológica e alimentar e o seu movimento tentava ajudar a comunidade Balanta a superá -la. No entanto, ao ser perseguido e reprimido politicamente durante vários anos, o movimento criou uma nova pressão sobre os Balanta.

Ntombikte iniciou um movimento que se enquadra no paradigma clássico dos ‘movimentos religiosos africanos' da literatura especializada, em particular dos proféticos. À semelhança de muitos destes, o Kyangyang tentou ajudar a reconstruir uma sociedade anómica e desmoralizada, promovendo não só a conversão ao monoteismo como também a auto-estima e a ética do trabalho. Apresenta, no entanto, algumas peculiaridades marcantes que o individualizam e que justificam plenamente um estudo em profundidade para compreender o seu lugar na criação de um espaço público na Guiné-Bissau contemporânea. Em primeiro lugar, ocorre entre os Balanta, etnia maioritária, maior produtora de arroz do país, que mais contribuiu com soldados para a guerra de libertação e a guerra civil, mas que, no entanto, após a Independência foi marginalizada pelo Estado. Trata-se, porém, de uma etnia sobre a qual existem poucos estudos etnográficos. Em segundo lugar, foi iniciado por uma mulher numa cultura religiosa fortemente patriarcal. Muito embora se conheçam varios movimentos proféticos iniciados por mulheres em África, nos Balantas este facto torna-se particularmente relevante, uma vez que as mulheres não assumem tradicionalmente qualquer liderança religiosa. De salientar que os Balantas nem sequer têm ´sociedades secretas´ femininas como a ´Bondo´ ou a ‘Sende' de outros grupos costeiros. Em terceiro lugar, não só é um movimento iniciado por mulheres, mas tenta modificar as relações de género de forma explícita. O nosso objectivo é colocar a transformação na esfera religiosa num quadro mais amplo da mudança nas relações de género observadas na vida agrícola dos Balanta - mudanças estas nem todas ligadas apenas ao surgimento do Kyangyang, mas a outros factores estruturais (absentismo dos jovens, novas regras matrimoniais, novas culturas de rendimento, etc.). A forma como as transformações dos direitos e expectativas femininas estão interligadas entre si é complexa e, até agora, pouco clara, sendo parte importante da investigação a executar. Em quarto lugar, a relação entre profetismo e racionalização económica (ja assinalada por Max Weber nos seus estudos sobre o ‘carisma'), tem entre os Balanta consequências directas na performance agrícola, o que no contexto da crise alimentar da Guiné de hoje é particularmente importante. Em quinto lugar, este processo de racionalização promoveu entre os Kyangyang uma ‘vontade de ser moderno' comum nos povos da Guiné Bissau (ver Gable 1995 para os Manjaco) mas que neste caso torna-se particuarmente imaginativa. Deu origem à criação de um corpo muito rico de ‘arte profética' (desenhos e esculturas em madeira, etc), que será objecto de devida analise. Muitas das mensagens que esta arte transmite anunciam um ‘mundo novo' onde prevalecem relações de género e sistemas agrícolas ‘modernos'. Por último, o Kyangyang é um movimento profético que ocorre após a independência, e portanto, ao invés do que aconteceu com a maior parte de outros conhecidos e estudados, não pode ser associado a uma resistencia anti-colonial. Este facto irá permitir-nos formular ideias teóricas inovadoras sobre o profetismo na África de hoje e sobre a sua relação com os processos de construção do Estado-nação e com crises globais.

 

Projecto A profeta e o orizicultor: inovações em religião, agricultura e género na Guiné Bissau - PTDC/AFR/111546/2009 - Financiado pela FCT

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Sim
Entidades: 
Fundação para a Ciência e Tecnologia
Keywords: 

Religião,

Agricultura,

Género,

Política

Uma característica da "Costa da Guiné" (da Casamansa à Libéria) é o seu pluralismo ritual. O grupos etno-linguísticos que a habitam possuem uma miríade de cultos especializados, relacionados com o trabalho agrícola, a fertilidade e a cura. Inspirando-se em R. Fardon, P. Richards fez referência a essa proliferação de cultos como uma ‘involução ritual' ligada a um processo de etnogénese em contextos de busca generalizada de refúgio (Fardon 1988, Richards 2007). Segundo este autor, as comunidades dos mangais da Costa da Guiné (Jola, Balanta, Baga, Temne, etc) foram constituídas por ondas de refugiados vindos do interior, desenvolvendo no novo contexto ecológico um engenhoso sistema de cultivo de arroz. Esta proliferação de cultos é, porém, apenas um lado da moeda. Muito frequentemente a Costa é cenário de movimentos proféticos inovadores que, ao invés de dividir a comunidade num mosaico de pequenas cultos competitivos, provocam a sua união em torno de um culto monoteísta. Nos últimos tempos, o mais impressionante destes cultos foi o movimento Kyangyang surgido entre os Balanta da Guiné-Bissau. O movimento nasceu em torno de Ntombikte, uma jovem profetisa (ainda hoje activa), que em 1984 começou a anunciar os mandamentos de Deus.

Tratava-se de uma época de intensa crise social, política, ecológica e alimentar e o seu movimento tentava ajudar a comunidade Balanta a superá -la. No entanto, ao ser perseguido e reprimido politicamente durante vários anos, o movimento criou uma nova pressão sobre os Balanta.

Ntombikte iniciou um movimento que se enquadra no paradigma clássico dos ‘movimentos religiosos africanos' da literatura especializada, em particular dos proféticos. À semelhança de muitos destes, o Kyangyang tentou ajudar a reconstruir uma sociedade anómica e desmoralizada, promovendo não só a conversão ao monoteismo como também a auto-estima e a ética do trabalho. Apresenta, no entanto, algumas peculiaridades marcantes que o individualizam e que justificam plenamente um estudo em profundidade para compreender o seu lugar na criação de um espaço público na Guiné-Bissau contemporânea. Em primeiro lugar, ocorre entre os Balanta, etnia maioritária, maior produtora de arroz do país, que mais contribuiu com soldados para a guerra de libertação e a guerra civil, mas que, no entanto, após a Independência foi marginalizada pelo Estado. Trata-se, porém, de uma etnia sobre a qual existem poucos estudos etnográficos. Em segundo lugar, foi iniciado por uma mulher numa cultura religiosa fortemente patriarcal. Muito embora se conheçam varios movimentos proféticos iniciados por mulheres em África, nos Balantas este facto torna-se particularmente relevante, uma vez que as mulheres não assumem tradicionalmente qualquer liderança religiosa. De salientar que os Balantas nem sequer têm ´sociedades secretas´ femininas como a ´Bondo´ ou a ‘Sende' de outros grupos costeiros. Em terceiro lugar, não só é um movimento iniciado por mulheres, mas tenta modificar as relações de género de forma explícita. O nosso objectivo é colocar a transformação na esfera religiosa num quadro mais amplo da mudança nas relações de género observadas na vida agrícola dos Balanta - mudanças estas nem todas ligadas apenas ao surgimento do Kyangyang, mas a outros factores estruturais (absentismo dos jovens, novas regras matrimoniais, novas culturas de rendimento, etc.). A forma como as transformações dos direitos e expectativas femininas estão interligadas entre si é complexa e, até agora, pouco clara, sendo parte importante da investigação a executar. Em quarto lugar, a relação entre profetismo e racionalização económica (ja assinalada por Max Weber nos seus estudos sobre o ‘carisma'), tem entre os Balanta consequências directas na performance agrícola, o que no contexto da crise alimentar da Guiné de hoje é particularmente importante. Em quinto lugar, este processo de racionalização promoveu entre os Kyangyang uma ‘vontade de ser moderno' comum nos povos da Guiné Bissau (ver Gable 1995 para os Manjaco) mas que neste caso torna-se particuarmente imaginativa. Deu origem à criação de um corpo muito rico de ‘arte profética' (desenhos e esculturas em madeira, etc), que será objecto de devida analise. Muitas das mensagens que esta arte transmite anunciam um ‘mundo novo' onde prevalecem relações de género e sistemas agrícolas ‘modernos'. Por último, o Kyangyang é um movimento profético que ocorre após a independência, e portanto, ao invés do que aconteceu com a maior parte de outros conhecidos e estudados, não pode ser associado a uma resistencia anti-colonial. Este facto irá permitir-nos formular ideias teóricas inovadoras sobre o profetismo na África de hoje e sobre a sua relação com os processos de construção do Estado-nação e com crises globais.

 

Projecto A profeta e o orizicultor: inovações em religião, agricultura e género na Guiné Bissau - PTDC/AFR/111546/2009 - Financiado pela FCT

Objectivos: 
With this general aim in mind, our specific objectives are: <p> </p><p>a) Reconstruct the wider ethno-historical picture. Collect more data on Balanta farmers, on their history, institutions, cosmology, environment and relationships with colonial and post-colonial interventions.  </p><p> </p><p>b) Conduct the life-story of the prophetess Ntombikte, whom we have already interviewed in the past. Compare the biography with other prophetess in Africa and frame it in a theoretical framework on gender and prophetism. Contextualize it within the wider range of gender transformations that the Kyangyang movement impinges on Balata society.</p><p> </p><p>c) Interview and analyze the discourses of her followers along the theoretical lines presented in this research proposal: religious change, appropriations of modernity, interface between religion, gender, and agriculture. We will also pay special attention to the fact that Kyangyang converts become healers because it is this role, we believe, that has facilitated the integration of the movement in the Balanta community (see below). </p><p> </p><p>d) Gather more evidence on their pictorial and material production. Kyangyang converts are extremely productive. They draw pictures, write ‘books' in indecipherable glossography, carve sculptures in clay or wood. Analyse this ‘prophetic art' in terms of the anthropology of images and imagination in order to explore the ideal world Balanta converts envisage for their community. </p>
State of the art: 
&nbsp; <p>This project studies the interface between a prophetic movement, agrarian conditions and gender by studying the Kyangyang, a massive yet understudied prophetic movement, mostly unknown to the scientific community apart from the monograph by historian of religions I. Callewaert (2000), who only looks at its theological and religious aspects, and the partial mention of it by de Jong (1987), who only looks at the psychiatric aspects. We intend to use our previous knowledge on the region and on Balanta (Sarr&oacute; 2009; Temudo 2009) to complement the scant literature on Balanta ethnography (Handem 1986; van der Drift 2000; Lundy 2009) but, most especially, to say something new about what E. Ardener called &lsquo;the prophetic voice' (Ardener 1988) screaming out of Africa.</p><p>&nbsp;</p><p>The literature on African religious movements similar to the one studied in this project is enormous. In colonial times, prophetic movements were common across the continent, and they drew the attention of researchers since the days when G. Balandier (1953) saw in the emergence of prophetism and millenarianism instances of popular resistance to colonial penetration. In the late 1950s and early 1960s, African prophetic and revivalist movements were systematically studied by scholars with the intention to build a body of theoretical work on the relationship between colonial oppression and religious innovation (e.g. Lanternari 1960; Barrett 1968). Monographs such as J. Peel's Aladura (Peel 1968), J. Fernandez's Bwiti (1982) or W. MacGaffey's Modern Kongo Prophets (1983) showed us different ways in which Africans enduring harsh colonial rule used their prophetic imagination to create their own space. </p><p>&nbsp;</p><p>A problem with the study of innovation in Africa was its tendency to see religion as a liberatory practice or a result of the modernisation of African societies. The importance of religion is unmistakable in many of the essays in the volume on protest and power in sub-Saharan Africa edited by R. Rotberg and A. Mazrui (1970) or, more recently, in the review of sources on rural protest written by A. Isaacman (1990). Yet this tendency does not account for the fact that although in colonial times religious movements were mushrooming across the continent, the African religious imagination is proving equally inventive now that we are no longer living in the colonial situation: this led authors to look for alternative interpretations. T. Ranger and I. Kimambo (1972) edited a collection in which the authors argued that African religion in general had to be studied historically and, more importantly, that it would be methodologically na&iuml;ve to assume that only under direct colonialism did Africans think of rebellion or protest; accordingly they offered a wider picture of revolutionary action through religion, beyond the purely anti-colonial aspect of it. W. de Craemer, J. Vansina and R. Fox (1976) wrote a seminal article arguing that the manifestations known as African religious movements, which according to most anthropologists at the time were typical of the colonial situation, were not as new as such views assumed. There was good evidence that socio-religious movements of the kind described existed in pre-colonial times too. Ten years later, T. Ranger (1986) wrote a thorough, if now a bit dated, review of perspectives. In the 1990s, the most innovative study on prophetism in West Africa, and one that inspired much of our own previous work on these phenomena, was the thorough study on the role of prophetism in the making of C&ocirc;te d'Ivoire by J. P. Dozon (1995).</p><p>&nbsp;</p><p>The study of gender, which in our study is going to bring together agriculture and prophetism, is today also a leading theme in the study of agriculture in rural Africa, as well as in that of African religion. Works such as M. Silberschmidt's or&nbsp; D. Perry's on the feminization of labour in a time of &lsquo;crisis of masculinity' (Silberschmidt 2001; Perry 2005); works such as D. Berliner's on the &lsquo;feminization' of customary religion among Bulongic, or that of T. Sanders on the importance of gender in maintaining raining shrines in Tanzania (Berliner 2005; Sanders 2008), show that the position of women is not only very prominently taken into account by Africanist scholars of, respectively, agriculture and religion, but also that this position is changing in a very rapid way, although this is hardly a new point; it was thoroughly explored by the (then) innovative series of articles on the role of women in new religious movements in Africa edited by B. Jules-Rosette (1979), as well as by the various studies -very relevant to us - on female prophetesses such as A. Roberts' on Alice Lenshina (Roberts 1970), J. Thornton's on Dona Beatrice Kimpa Vita (Thornton 1998), H. Behrend's on Alice Lankwena (Behrend 1999) or R. Baum's on Alinesitue (Baum 2001). Our research is innovative in that, unlike the studies just cited, we are crossing the literature and debates on women in agriculture with the literature and debates on women in religion, showing that a plural perspective can help us understand better the interconnection between gender relations, religion, and agriculture without neglecting or minimizing any of the elements. By trying to look at agrarian communities from several points of views and looking for unusual interconnections, we are following the ethno-agronomical research of other specialists of the Upper Guinea Coast and of West Africa, and especially that of P. Richards and his collaborators (e.g. Richards 2007; Chaveau and Richards 2008), a school with which we work in very close collaboration.</p>
Parceria: 
Não Integrado
Marina P. Temudo
Coordenador ICS 
Referência externa 
PROJ7/2011
Data Inicio: 
05/04/2011
Data Fim: 
05/04/2014
Duração: 
36 meses
Concluído