A produção da vida familiar no masculino: novos papéis, novas identidades

A produção da vida familiar no masculino: novos papéis, novas identidades

Face às transformações ocorridas em Portugal nas últimas décadas, este projecto tem por objectivo investigar o lugar que os homens ocupam hoje no universo familiar, procurando perceber, malgrado a manutenção de desigualdades de género, até que ponto a crescente entrada das mulheres na esfera pública teve como contraponto um movimento de entrada dos homens no mundo privado da família. Através da análise das práticas e das orientações normativas masculinas relativas à conciliação entre obrigações familiares e vida profissional, à construção do papel parental ou ainda referentes à divisão sexual do poder e dos recursos materiais na conjugalidade, tenta-se saber de que formas as mudanças operadas ao nível macrossocial tiveram impacto nos papéis masculinos. A avaliação das referências de construção da identidade masculina constitui uma outra dimensão na aferição das mudanças em curso: a um modelo de masculinidade tradicional poder-se-ão começar a contrapor traços associados ao feminino. Em terceiro lugar, através da análise das políticas públicas relativas aos homens no universo da vida familiar, procura-se analisar a evolução das medidas que afectam a paternidade e a conciliação entre trabalho e família, dando ainda atenção às implicações dos resultados da investigação para as políticas sociais.

Estatuto: 
Entidade participante
Financiado: 
Não
Keywords: 

género, masculinidade, paternidade, família

Face às transformações ocorridas em Portugal nas últimas décadas, este projecto tem por objectivo investigar o lugar que os homens ocupam hoje no universo familiar, procurando perceber, malgrado a manutenção de desigualdades de género, até que ponto a crescente entrada das mulheres na esfera pública teve como contraponto um movimento de entrada dos homens no mundo privado da família. Através da análise das práticas e das orientações normativas masculinas relativas à conciliação entre obrigações familiares e vida profissional, à construção do papel parental ou ainda referentes à divisão sexual do poder e dos recursos materiais na conjugalidade, tenta-se saber de que formas as mudanças operadas ao nível macrossocial tiveram impacto nos papéis masculinos. A avaliação das referências de construção da identidade masculina constitui uma outra dimensão na aferição das mudanças em curso: a um modelo de masculinidade tradicional poder-se-ão começar a contrapor traços associados ao feminino. Em terceiro lugar, através da análise das políticas públicas relativas aos homens no universo da vida familiar, procura-se analisar a evolução das medidas que afectam a paternidade e a conciliação entre trabalho e família, dando ainda atenção às implicações dos resultados da investigação para as políticas sociais.

Objectivos: 
Esta pesquisa tem por objectivo investigar os novos lugares dos homens na família, uma área ainda pouco pesquisada em Portugal, e, assim contribuir, seguindo tendências em expansão noutros países, para o conhecimento das transformações no modelo tradicional de relações de género. A diversidade de "formas de ser" no masculino constitui uma preocupação central, pressupondo-se que tanto os contextos sociais como as trajectórias familiares estruturam a construção dos papéis e das identidades masculinas na vida privada. Em sintonia com esta perspectiva teórica privilegiam-se as seguintes variáveis: nível de escolaridade, situação profissional e situação familiar actual. As duas primeiras, remetendo para a questão das desiguais posições ocupadas no espaço social, permitem analisar a influência dos capitais na construção da masculinidade. <br />
State of the art: 
A questão das desigualdade de género e da posição social das mulheres, cada vez mais caracterizada por um esforço de equilíbrio entre os seus papéis na esfera pública e na esfera privada, tem sido largamente debatido na ciência social. Por um lado, as transformações ocorridas nas últimas décadas são uma demonstração do aumento do protagonismo das mulheres (Roussel, 1987; Commaille, 1992). Por outro lado, a conceptualização do género como um elemento fundador do processo social (Bourdieu, 1998) e a desconstrução da separação entre produção e reprodução, bem como o interesse na diversidade das estruturas familiares e identidades sociais, contribuiu para que os sociólogos tenham focado a sua atenção na temática da desigualdade de género. Neste contexto, os dilemas e as ambiguidades que as mulheres com que as mulheres se confrontam no seu "duplo dia de trabalho" entre trabalho, casa e crianças são temas cada vez mais centrais na pesquisa (Garey, 1999; Drew et. al., 1998; Barrère-Maurrison, 1992; Hantrais, 1990; Guerreiro, 1998). Todavia, só recentemente é que a pesquisa sobre relações de género focou a sua atenção no homem, à medida em que foi tornando mais claro que o tradicional modelo de masculinidade estava em mudança (Vale de Almeida, 1995; Amâncio, 1994; Brod and Kaufman, 1994; Kimmel and Messner, 1995; Seidler, 1997) e que a tensão entre trabalho e família também se lhes aplicava (Crompton, 1999; Marsiglio, 1995). Não havendo dúvida que na esfera familiar desigualdades entre homens e mulheres ainda persistem, é verdade que também há alguns movimentos de orientação e maior envolvimento dos homens nos trabalhos da área doméstica e parental (Perista, 2002; Torres et. al., 2000; Almeida and Wall, 2001; Wall, 2003). Vários estudos, particularmente no norte da Europa e no mundo anglo-saxónico, sobre o tema da paternidade e respectivo impacto nas mudanças de comportamentos masculinos e identidades, têm demonstrado como os homens se têm envolvido em áreas tradicionalmente reservadas para as mulheres (Bjornberg and Kollind, 1996; Lupton and Barclay, 1997; Neyrand, 2000; Dulemau and Roche, 1990). Este é um tema sobre o qual ainda se sabe pouco em Portugal. Seja pelo poder da mudança simbólica, cuja forte expectativa de igualdade legitimou-se norma (Almeida e Wall, 2001; Almeida, 2003), seja pelas mudanças nos papéis das mulheres e comportamentos familiares, é certo que o crescente número de incurssões no tradicional modelo masculino começou a surtir efeito. Crianças, a crescente natureza relacional da conjugalidade entre parceiros iguais, e a participação dos homens nas tarefas domésticas, estão hoje cada vez mais em conflito com as exigências das obrigações e ética profissional, com a responsabilidade patriarcal e com a anterior autoridade associada ao homem, e que ainda hoje é frequentemente associada ao homem.
Sofia Marinho
Sonia V. Correia
Coordenador 
Data Inicio: 
01/01/2004
Data Fim: 
01/01/2007
Duração: 
36 meses
Concluído