A Politica da Esperança: o Papel das Igrejas na Reconstrução da Angola de Pós-guerra

A Politica da Esperança: o Papel das Igrejas na Reconstrução da Angola de Pós-guerra

Este projecto surge no seguimento de um anterior financiado pela FCT ("O Atlântico Cristão: Etnografias de encontros religiosos em Lisboa", 2007-2010). Aquele projecto incidia sobre os encontros e diálogos entre as chamadas formas "meridionais" de cristianismo em Lisboa, nomeadamente no que se refere a igrejas de origem brasileira e africana. Tanto o PI como o investigador R Blanes levaram a cabo investigação de terreno com as igrejas Kimbanguista e Tokoista, de origem congolesa/angolana. Esta investigação levou-nos a Angola, por duas ocasiões, e à RD Congo (para o PI) por uma. Nestas missões, apercebemo-nos de que a diáspora estudada em Lisboa não era senão uma minúscula ponta de um gigantesco iceberg, reconhecendo que um futuro projecto de investigação sobre estas temáticas não poderia deixar de fora o estudo da religião em Angola e o seu papel na (re)construção do país no pós-guerra. O nosso enquadramento geral a partir das teorias da "meridionalização cristã" também nos levou a concluir que um estudo em profundidade de expressões contemporâneas de cristianismo na África era urgente, se quiséssemos perceber a fundo os alinhamentos transnacionais que observámos em Lisboa. Hoje, os africanos estão a assumir um papel activo e criativo na produção de novas formas de fé cristã que não são necessariamente geograficamente delimitadas mas que se expandem para "fora de África" (Palmié 2007).

Neste contexto em particular, Angola é um exemplo paradigmático mas estranhamente negligenciado na academia. Apesar de haver um corpo bibliográfico relevante relativamente ao papel da religião durante os anos de guerra, e sobre o complexo papel entre as instituições religiosas e o regime marxista de 1975 a 2002 (Péclard 1998; Messiant 2008), pouco tem sido feito para mapear a situação religiosa em Angola desde o cessarfogo de 2002. Na sociedade Angolana, a religião (e em particular o cristianismo) atingiu uma centralidade impensável nos anos anteriores ao armistício. Luanda é hoje uma das cidades com maior índice de locais de culto no continente africano, e a religião assume um papel cada vez mais visível e politicamente activo no território nacional. Apesar de muitas destas igrejas terem aparecido na década de 1990, hoje em dia verifica-se a sua "explosão" na esfera pública, de forma tão impactante que precisaria de vários projectos de investigação para se poder elaborar uma cobertura completa. No entanto, confiamos em que a nossa proposta conseguirá levar a cabo um mapeamento empírico com conclusões importantes para perceber o papel da religião na criação de uma "nova sociedade" angolana, mantendo no entanto um olhar crítico para as fissuras estruturais do processo de "cura" observado na sociedade angolana contemporânea. Neste projecto pretendemos explorar algumas das tensões já identificadas no nosso trabalho de terreno anterior, analisando não só as dinâmicas sociológicas que operam nos distintos grupos religiosos, mas também as imaginações temporais e nacionais que os diferentes movimentos produzem na constituição de pertença e cidadania. De facto, uma das tendências recorrentes, tanto na antropologia como nos estudos religiosos é a sua inclinação para as questões da "memória".

Neste projecto, pretendemos incorporar o problema da "esperança" e "expectativa" na análise do lugar da religião na sociedade. Entre outras coisas, a religião também implica a imaginação de um futuro, e esta imaginação assume um papel fundamental em contextos de pós-guerra como o que Angola atravessa neste momento. Esta imaginação do futuro é particularmente relevante no estudo de igrejas proféticas tais como as que nós estudámos (Tokoismo e Kimbanguismo), que aparecem muito ligadas a uma memória histórica do antigo Reino do Kongo (Sarró, Blanes e Viegas 2008). Isto torna o estudo de movimentos proféticos em Angola particularmente relevante: até que ponto é que estas igrejas estão a propor imaginações histórica alternativas e "temporalidades inconsistentes" (parafraseando Michael Rowlands) por relação ao projecto modernizador do "Homem Novo" e Estado Nação angolano? Qual o papel da recente patrimonialização, por parte da UNESCO, de locais históricos e religiosos como Mbanza Kongo (antiga capital do Reino do Congo) neste processo? As igrejas na Angola contemporânea são participantes activos na construção de uma esfera pública. No entanto, os dados de que dispomos até ao momento apenas dizem respeito a Luanda - o que corre o risco de dar apenas uma imagem parcial das dinâmicas da vida religiosa (que abrange processos tão diferenciados como o desenvolvimento de cooperativas agrárias por parte das igrejas à participação política em processos de patrimonialização). Optamos, portanto, por uma pesquisa simultânea em dois locais distintos: Mbanza Kongo e Luanda, estudando o papel de distintas igrejas (proféticas, pentecostais, católicas) nos dois contextos.

 

PTDC/CS-ANT/112897/2009 - Financiado pela FCT

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Sim
Entidades: 
Fundação para a Ciência e Tecnologia
Keywords: 

Religião,

Angola,

Esperança,

Pós-Guerra

Este projecto surge no seguimento de um anterior financiado pela FCT ("O Atlântico Cristão: Etnografias de encontros religiosos em Lisboa", 2007-2010). Aquele projecto incidia sobre os encontros e diálogos entre as chamadas formas "meridionais" de cristianismo em Lisboa, nomeadamente no que se refere a igrejas de origem brasileira e africana. Tanto o PI como o investigador R Blanes levaram a cabo investigação de terreno com as igrejas Kimbanguista e Tokoista, de origem congolesa/angolana. Esta investigação levou-nos a Angola, por duas ocasiões, e à RD Congo (para o PI) por uma. Nestas missões, apercebemo-nos de que a diáspora estudada em Lisboa não era senão uma minúscula ponta de um gigantesco iceberg, reconhecendo que um futuro projecto de investigação sobre estas temáticas não poderia deixar de fora o estudo da religião em Angola e o seu papel na (re)construção do país no pós-guerra. O nosso enquadramento geral a partir das teorias da "meridionalização cristã" também nos levou a concluir que um estudo em profundidade de expressões contemporâneas de cristianismo na África era urgente, se quiséssemos perceber a fundo os alinhamentos transnacionais que observámos em Lisboa. Hoje, os africanos estão a assumir um papel activo e criativo na produção de novas formas de fé cristã que não são necessariamente geograficamente delimitadas mas que se expandem para "fora de África" (Palmié 2007).

Neste contexto em particular, Angola é um exemplo paradigmático mas estranhamente negligenciado na academia. Apesar de haver um corpo bibliográfico relevante relativamente ao papel da religião durante os anos de guerra, e sobre o complexo papel entre as instituições religiosas e o regime marxista de 1975 a 2002 (Péclard 1998; Messiant 2008), pouco tem sido feito para mapear a situação religiosa em Angola desde o cessarfogo de 2002. Na sociedade Angolana, a religião (e em particular o cristianismo) atingiu uma centralidade impensável nos anos anteriores ao armistício. Luanda é hoje uma das cidades com maior índice de locais de culto no continente africano, e a religião assume um papel cada vez mais visível e politicamente activo no território nacional. Apesar de muitas destas igrejas terem aparecido na década de 1990, hoje em dia verifica-se a sua "explosão" na esfera pública, de forma tão impactante que precisaria de vários projectos de investigação para se poder elaborar uma cobertura completa. No entanto, confiamos em que a nossa proposta conseguirá levar a cabo um mapeamento empírico com conclusões importantes para perceber o papel da religião na criação de uma "nova sociedade" angolana, mantendo no entanto um olhar crítico para as fissuras estruturais do processo de "cura" observado na sociedade angolana contemporânea. Neste projecto pretendemos explorar algumas das tensões já identificadas no nosso trabalho de terreno anterior, analisando não só as dinâmicas sociológicas que operam nos distintos grupos religiosos, mas também as imaginações temporais e nacionais que os diferentes movimentos produzem na constituição de pertença e cidadania. De facto, uma das tendências recorrentes, tanto na antropologia como nos estudos religiosos é a sua inclinação para as questões da "memória".

Neste projecto, pretendemos incorporar o problema da "esperança" e "expectativa" na análise do lugar da religião na sociedade. Entre outras coisas, a religião também implica a imaginação de um futuro, e esta imaginação assume um papel fundamental em contextos de pós-guerra como o que Angola atravessa neste momento. Esta imaginação do futuro é particularmente relevante no estudo de igrejas proféticas tais como as que nós estudámos (Tokoismo e Kimbanguismo), que aparecem muito ligadas a uma memória histórica do antigo Reino do Kongo (Sarró, Blanes e Viegas 2008). Isto torna o estudo de movimentos proféticos em Angola particularmente relevante: até que ponto é que estas igrejas estão a propor imaginações histórica alternativas e "temporalidades inconsistentes" (parafraseando Michael Rowlands) por relação ao projecto modernizador do "Homem Novo" e Estado Nação angolano? Qual o papel da recente patrimonialização, por parte da UNESCO, de locais históricos e religiosos como Mbanza Kongo (antiga capital do Reino do Congo) neste processo? As igrejas na Angola contemporânea são participantes activos na construção de uma esfera pública. No entanto, os dados de que dispomos até ao momento apenas dizem respeito a Luanda - o que corre o risco de dar apenas uma imagem parcial das dinâmicas da vida religiosa (que abrange processos tão diferenciados como o desenvolvimento de cooperativas agrárias por parte das igrejas à participação política em processos de patrimonialização). Optamos, portanto, por uma pesquisa simultânea em dois locais distintos: Mbanza Kongo e Luanda, estudando o papel de distintas igrejas (proféticas, pentecostais, católicas) nos dois contextos.

 

PTDC/CS-ANT/112897/2009 - Financiado pela FCT

Objectivos: 
  <p>The objectives of this project are</p><p>1) to understand the role of churches post-war Angola</p><p>2) to explore the tensions between Northern Angola (the Kingdom of Congo) and Luanda (the Nation)</p><p>3) to explore the politics of expectation and of hope in a post-war setting and how religion impinges imaginations about the future</p><p>4) to gives a better understanding of what goes on in Angola today and why the Angolan diaspora is so anomalous in relationshi to other African diasporas (especially in terms of hope for their nation). </p>
State of the art: 
From a historical point of view, religion in Angola has been already object of fundamental and groundbreaking research - especially in what concerns colonial and postcolonial times (Santos 1969; Viegas 1999). In this literature, relevant themes have been tackled: from the role of missions in the Angolan territory (Henderson 1990; Freston 2001; P&eacute;clard 2001) to relationships between (Catholic) church and state in the colonial period (P&eacute;clard 1998), the arrival of Neopentecostal movements in this country (Freston 2005), the development of Angolan ethnic movements (Grenfell 1998; Messiant 2006) and even the active peace activism of religious movements in the years of conflict (Messiant 2003; Comerford 2005). <p>&nbsp;</p><p>Despite this existing bibliography, and despite the inevitable recognition of a current context of &quot;religious proliferation&quot; in Angola (especially since the armistice in 2002) very little has been done concerning religious affairs. A few exceptions should be mentioned, namely F&aacute;tima Viegas' survey of the religious situation in term of juridical status (2007), Luena Pereira's research on the problem of child witchcraft in post-war Angola (2008) or our own research on the situation of the Kimbanguist (Sarr&oacute;, Blanes and Viegas 2008) and Tokoist (Blanes 2009) churches in this country. Our research project intends to fill this important gap by bringing to the fore some of the most urgent issues in contemporary Angolan society.</p><p>&nbsp;</p><p>The proposal intends to bring Angola to the core of the main theoretical debates concerning religion, and Christianity in particular, in contemporary Africa. Namely, the recent approaches that are progressively concerned with the development of Pentecostal and Charismatic Christianity in Africa, their public role in local society and politics (see e.g. Gifford 1998; Ellis and ter Haar 2001; Van Dijk and Gabar 2004; Ranger 2008; Sarr&oacute; 2009; Marshall 2009). The study of Christianity in Angola can offer an important counterpoint to these major theories, especially in what concerns the following themes:</p><p>&nbsp;</p><p>1) Religious transnationalism in the what in our previous project we called the &quot;Christian Atlantic&quot;, where Christianity plays a fundamental role as a progressively &lsquo;southernised' phenomenon reaching &lsquo;the north'; following some preliminary proposals (Freston 2005) we want Angola to be fully introduced into the debates on the transnationalisation of African religion (Corten and Mary 2000; Fourchard, Mary and Otayek 2005).</p><p>&nbsp;</p><p>2) Issues of religious place, mobility and consequent problems of identity and belonging. More specifically, we are thinking of recent debates on modernity, mobility and identity in Africa (Amselle 2000; de Bruijn, van Dijk and Foeken 2001; Ferguson 2006), and how they play in the religious context (Palmi&eacute; 2007).</p><p>&nbsp;</p><p>3) Religion and politics - namely, the role of religious institutions in political life. In Angola, the problems of human displacement, welfare, social aid and civic action have been addressed by researchers, especially in what concerns the war period (Simon 2001; Brinkman 2006; Messiant 2008). In many of these approaches, the role of the churches in the promotion of peace talks and addressing human rights has been frequently invoked, yet it has not been framed in terms of religious institutions as social actors in the post-war period, as we propose here.</p><p>&nbsp;</p>
Parceria: 
Não Integrado
Camila Sampaio
Coordenador 
Data Inicio: 
24/01/2011
Data Fim: 
24/01/2014
Duração: 
36 meses
Concluído