O Império colonial português e a cultura popular urbana: Visões comparativas da metrópole e das colónias (1945-1974)

O Império colonial português e a cultura popular urbana: Visões comparativas da metrópole e das colónias (1945-1974)

Os impérios são espaços de circulação de pessoas e bens entre colónias e respetivos centros metropolitanos, mas também espaços de circulação globais. Formas culturais diversas circularam tanto no espaço do império português, como também entre impérios e entre espaços imperiais e não imperiais, afetando representações do mundo mas também práticas quotidianas.

Este projeto interdisciplinar, que junta a história, a antropologia, os estudos pós-coloniais e culturais, procura compreender como é que a circulação dos produtos da cultura popular urbana, imperial e global, entre 1945 e 1974 ajudaram a construir uma sociedade colonial constituída no entrecruzamento de colónias, metrópole e contextos globais mais vastos.

De entre as formas culturais, a cultura popular adquire um estatuto particular. Através da produção e do consumo de cinema, música e literatura popular, os três géneros que vamos investigar neste projeto, é possível identificar quatro linhas de investigação principais:

  1. as representações do colonial no cinema, na música e na literatura popular;
  2. o papel do estado na produção de cultura popular e a vigilância que várias das suas instituições e dispositivos, desde a Censura à Inspecção Geral dos Espectáculos, exerceu sobre este mercado;
  3. a produção de discursos contra hegemónicos em relação ao poder colonial, do ponto de vista político, mas também contra as normas e valores sociais que sustentavam uma ordem colonial, no que respeita a hábitos de consumos e estilos de vida, a relações de hierarquia, de género, ou aos choques entre representações geracionais;
  4. o modo como as populações integraram a cultura popular no seu quotidiano, tanto no papel de produtores como no de consumidores. Luanda e Lourenço Marques, as capitais de Angola e Moçambique que aqui nos propomos investigar, foram espaços privilegiados destas trocas, tanto no que respeita à produção, como à difusão e ao consumo de cultura popular, constituindo-se como centros difusores das representações da ideologia colonial, mas também como locais de circulação de influências culturais de sentido diverso.

A análise das práticas, dos consumos e das circulações de cultura popular no espaço colonial urbano é o que melhor caracteriza este projeto e o distingue. Neste contexto queremos:

a) identificar o consumo destes géneros de cultura popular e a circulação dos discursos e imagens por si criados entre a população que, entre 1945 e 1974, viveu em Luanda e Lourenço Marques. Para a concretização deste objetivo iremos ter em atenção a posição social, política e cultural dos vários grupos que habitavam estas cidades durante o referido período;

b) analisar a forma como estas populações interpretaram os produtos da cultura popular que circulavam por estas cidades coloniais, que usos lhe deram e de que forma o cinema, a música e a literatura popular se integraram nas suas vidas quotidianas;

c) de que forma uma sociedade colonial e imperial foi imaginada e reproduzida a partir do contato com a cultura popular.

A pesquisa assentará numa estratégia de estudos de caso que permitirão tornar mais denso o tratamento de um conjunto de questões e problemas no campo de práticas e consumos culturais, desenvolvidos a partir de abordagens etnográficas, pesquisa de arquivo e entrevistas em profundidade, permitindo identificar os vários agentes da cultura popular (produtores, técnicos, distribuidores, comerciantes), espaços (cinemas, locais de concerto, ou de venda de livros e revistas), e os diversos públicos.

O projeto tem uma vincada dimensão comparativa, pondo em confronto vários territórios, a formação de mercados de cultura, os seus agentes, espaços, formatos e ainda as apropriações locais das formas da cultura popular. Esta dimensão comparativa permite ainda avaliar o grau de dependência que as colónias tinham da cultura da metrópole face à força de uma cultura global, liderada pelos grandes centros da indústria cultural, mas também por dinâmicas regionais africanas, onde centros como a África do Sul possuíam uma importância decisiva. Neste sentido, o estudo do caso imperial português possibilita criar uma base de comparação com trabalhos desenvolvidos sobre a cultura popular noutros espaços imperiais, a qual será desenvolvida mediante a realização de uma conferência internacional sobre cultura popular e império no âmbito do projeto. A natureza inovadora do projeto resulta ainda da sua natureza interdisciplinar, contando com uma equipa com vasto trabalho desenvolvido sobre as temáticas do império e da cultura popular a partir de diferentes tradições académicas. Esta abordagem permitirá o desenvolvimento de um estudo mais sistemático do tema, combinando a produção cultural com as suas práticas e consumos, na linha dos estudos desenvolvidos noutros contextos, ainda largamente ausentes na academia portuguesa.

 

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Sim
Entidades: 
Fundação para a Ciência e Tecnologia
Keywords: 

Colonialismo, Império portugês, Cultura popular, Cidades

Os impérios são espaços de circulação de pessoas e bens entre colónias e respetivos centros metropolitanos, mas também espaços de circulação globais. Formas culturais diversas circularam tanto no espaço do império português, como também entre impérios e entre espaços imperiais e não imperiais, afetando representações do mundo mas também práticas quotidianas.

Este projeto interdisciplinar, que junta a história, a antropologia, os estudos pós-coloniais e culturais, procura compreender como é que a circulação dos produtos da cultura popular urbana, imperial e global, entre 1945 e 1974 ajudaram a construir uma sociedade colonial constituída no entrecruzamento de colónias, metrópole e contextos globais mais vastos.

De entre as formas culturais, a cultura popular adquire um estatuto particular. Através da produção e do consumo de cinema, música e literatura popular, os três géneros que vamos investigar neste projeto, é possível identificar quatro linhas de investigação principais:

  1. as representações do colonial no cinema, na música e na literatura popular;
  2. o papel do estado na produção de cultura popular e a vigilância que várias das suas instituições e dispositivos, desde a Censura à Inspecção Geral dos Espectáculos, exerceu sobre este mercado;
  3. a produção de discursos contra hegemónicos em relação ao poder colonial, do ponto de vista político, mas também contra as normas e valores sociais que sustentavam uma ordem colonial, no que respeita a hábitos de consumos e estilos de vida, a relações de hierarquia, de género, ou aos choques entre representações geracionais;
  4. o modo como as populações integraram a cultura popular no seu quotidiano, tanto no papel de produtores como no de consumidores. Luanda e Lourenço Marques, as capitais de Angola e Moçambique que aqui nos propomos investigar, foram espaços privilegiados destas trocas, tanto no que respeita à produção, como à difusão e ao consumo de cultura popular, constituindo-se como centros difusores das representações da ideologia colonial, mas também como locais de circulação de influências culturais de sentido diverso.

A análise das práticas, dos consumos e das circulações de cultura popular no espaço colonial urbano é o que melhor caracteriza este projeto e o distingue. Neste contexto queremos:

a) identificar o consumo destes géneros de cultura popular e a circulação dos discursos e imagens por si criados entre a população que, entre 1945 e 1974, viveu em Luanda e Lourenço Marques. Para a concretização deste objetivo iremos ter em atenção a posição social, política e cultural dos vários grupos que habitavam estas cidades durante o referido período;

b) analisar a forma como estas populações interpretaram os produtos da cultura popular que circulavam por estas cidades coloniais, que usos lhe deram e de que forma o cinema, a música e a literatura popular se integraram nas suas vidas quotidianas;

c) de que forma uma sociedade colonial e imperial foi imaginada e reproduzida a partir do contato com a cultura popular.

A pesquisa assentará numa estratégia de estudos de caso que permitirão tornar mais denso o tratamento de um conjunto de questões e problemas no campo de práticas e consumos culturais, desenvolvidos a partir de abordagens etnográficas, pesquisa de arquivo e entrevistas em profundidade, permitindo identificar os vários agentes da cultura popular (produtores, técnicos, distribuidores, comerciantes), espaços (cinemas, locais de concerto, ou de venda de livros e revistas), e os diversos públicos.

O projeto tem uma vincada dimensão comparativa, pondo em confronto vários territórios, a formação de mercados de cultura, os seus agentes, espaços, formatos e ainda as apropriações locais das formas da cultura popular. Esta dimensão comparativa permite ainda avaliar o grau de dependência que as colónias tinham da cultura da metrópole face à força de uma cultura global, liderada pelos grandes centros da indústria cultural, mas também por dinâmicas regionais africanas, onde centros como a África do Sul possuíam uma importância decisiva. Neste sentido, o estudo do caso imperial português possibilita criar uma base de comparação com trabalhos desenvolvidos sobre a cultura popular noutros espaços imperiais, a qual será desenvolvida mediante a realização de uma conferência internacional sobre cultura popular e império no âmbito do projeto. A natureza inovadora do projeto resulta ainda da sua natureza interdisciplinar, contando com uma equipa com vasto trabalho desenvolvido sobre as temáticas do império e da cultura popular a partir de diferentes tradições académicas. Esta abordagem permitirá o desenvolvimento de um estudo mais sistemático do tema, combinando a produção cultural com as suas práticas e consumos, na linha dos estudos desenvolvidos noutros contextos, ainda largamente ausentes na academia portuguesa.

 

Objectivos: 
.
Parceria: 
Não Integrado

Coordenador 
Data Inicio: 
15/06/2016
Data Fim: 
14/06/2019
Duração: 
36 meses
Em curso