A gripe pneumónica em Portugal: gestão de risco e saúde pública no Portugal da Primeira República

A gripe pneumónica em Portugal: gestão de risco e saúde pública no Portugal da Primeira República

A influenza - ou "gripe espanhola" - de 1918-19, foi o maior desastre demográfico do século XX e, para alguns, o maior de toda a história humana. Apesar de não haver dados absolutamente fiáveis relativamente ao número de mortes, sabe-se que este ultrapassou em muito a outra causa maior de morte na época - a Primeira Guerra Mundial. De facto, as estimativas relativas ao número de vítimas mortais apontam para números entre os 21 e os 60 milhões. A gripe pneumónica, como ficou conhecida entre nós a epidemia de influenza de 1918-19, chega a Portugal em finais de Maio de 1918. A partir de Julho já atingiu Lisboa e o Porto, estendendo-se depois a todo o território nacional. As estimativas relativas à mortalidade que lhe é atribuída em Portugal também variam, entre as mais de 50 000 e as mais de 100 000 pessoas, como ocorre com as registadas a nível global. Há, de qualquer modo, consenso no que se refere às consequências demográficas desta epidemia: de facto, em Portugal, a gripe pneumónica foi o factor que produziu mais mortes no século XX, ultrapassando em muito o número de mortes na guerra colonial e na Primeira Guerra Mundial. Apesar da sua enorme relevância, os estudos sobre esta catástrofe mundial são em número bastante reduzido. De facto, após uma primeira fase quase contemporânea dos surtos, em que se publicaram muitos relatos da epidemia, apenas no final dos anos 70 começa a haver alguma investigação sistemática. Todavia, só nos anos 90, e em particular com a conferência realizada na cidade do Cabo em 1998 para assinalar os 80 anos da epidemia, é que se assiste ao ressurgimento do interesse por esta problemática. Em Portugal também podemos observar estas tendências. Encontramos um conjunto de obras de relato e análise da gripe pneumónica na altura da sua ocorrência, das quais se destacam os trabalhos de Ricardo Jorge (1919) e algumas teses de doutoramento em medicina que elegeram a pandemia como tema, seguindo-se depois um longo período de silêncio quase absoluto. O interesse pelo fenómeno renasce em alguns trabalhos académicos, como os de Cúcio Frada, Trindade e Girão. No entanto, a investigação produzida sobre este acontecimento está longe de ter explorado todas as suas virtualidades. Este trabalho, que se apoia na investigação existente, pretende ser um contributo para o estudo compreensivo da pandemia, nomeadamente no que diz respeito às estratégias de gestão da saúde pública. Com a sua realização procuramos não apenas compreender em termos multidimensionais um acontecimento marcante da história da sociedade portuguesa, que envolveu os campos político, científico e as diversas agências envolvidas na saúde pública. Procuramos também utilizar este estudo de caso para reflectir, à luz do que aconteceu nessa altura, sobre as diversas dimensões - económicas, sociais, culturais, políticas e científicas - da problemática das epidemias e sobre os riscos de pandemia com que nos confrontamos no universo globalizado dos nossos dias, que continuam a ser uma preocupação fulcral das agências nacionais e internacionais de saúde pública. De facto, esta pandemia apresenta muitas das características que alguns autores salientam como típicas da sociedade em que vivemos actualmente, uma "sociedade do risco" global. Foi uma ameaça global no sentido actual do termo, na medida em que o vírus da gripe, tal como muitos perigos actuais, não conheceu fronteiras de países, de continentes, nem de espécies. Foi uma ameaça de um tipo que desafiava as estruturas de saúde da altura que não estavam preparadas para dar resposta a este tipo de problema e que continua a suscitar inquietação na comunidade científica, que receia a probabilidade de uma ressurgência (idem). E, provavelmente, tratou-se de uma ameaça que, como as actuais, foi objecto de interpretações contrastantes, construídas na interacção entre os diversos agentes sociais e as diferentes forças políticas. As características da pandemia de 1918-19 prestam-se, assim, a um estudo à luz dos debates actuais sobre os novos riscos. Um estudo em que se procurará estudar as ideias, representações e controvérsias suscitadas pela epidemia e compará-las com as que rodeiam fenómenos similares na actualidade. A situação presente, de um mundo ainda mais unificado do que o de então, nomeadamente pelas migrações das últimas décadas e pela massificação do transporte aéreo, faz com que continuem vivos os receios de uma ressurgência da pandemia. Nesse sentido, este trabalho sobre a gripe pneumónica tem como objecto analisar simultaneamente o fenómeno no seu contexto específico e contribuir para uma reflexão mais alargada sobre as pandemias na actualidade e as suas consequências para a saúde pública.

Estatuto: 
Entidade proponente
Financiado: 
Não
Keywords: 

Epidemia, Risco, Políticas de Saúde, Representações sociais

A influenza - ou "gripe espanhola" - de 1918-19, foi o maior desastre demográfico do século XX e, para alguns, o maior de toda a história humana. Apesar de não haver dados absolutamente fiáveis relativamente ao número de mortes, sabe-se que este ultrapassou em muito a outra causa maior de morte na época - a Primeira Guerra Mundial. De facto, as estimativas relativas ao número de vítimas mortais apontam para números entre os 21 e os 60 milhões. A gripe pneumónica, como ficou conhecida entre nós a epidemia de influenza de 1918-19, chega a Portugal em finais de Maio de 1918. A partir de Julho já atingiu Lisboa e o Porto, estendendo-se depois a todo o território nacional. As estimativas relativas à mortalidade que lhe é atribuída em Portugal também variam, entre as mais de 50 000 e as mais de 100 000 pessoas, como ocorre com as registadas a nível global. Há, de qualquer modo, consenso no que se refere às consequências demográficas desta epidemia: de facto, em Portugal, a gripe pneumónica foi o factor que produziu mais mortes no século XX, ultrapassando em muito o número de mortes na guerra colonial e na Primeira Guerra Mundial. Apesar da sua enorme relevância, os estudos sobre esta catástrofe mundial são em número bastante reduzido. De facto, após uma primeira fase quase contemporânea dos surtos, em que se publicaram muitos relatos da epidemia, apenas no final dos anos 70 começa a haver alguma investigação sistemática. Todavia, só nos anos 90, e em particular com a conferência realizada na cidade do Cabo em 1998 para assinalar os 80 anos da epidemia, é que se assiste ao ressurgimento do interesse por esta problemática. Em Portugal também podemos observar estas tendências. Encontramos um conjunto de obras de relato e análise da gripe pneumónica na altura da sua ocorrência, das quais se destacam os trabalhos de Ricardo Jorge (1919) e algumas teses de doutoramento em medicina que elegeram a pandemia como tema, seguindo-se depois um longo período de silêncio quase absoluto. O interesse pelo fenómeno renasce em alguns trabalhos académicos, como os de Cúcio Frada, Trindade e Girão. No entanto, a investigação produzida sobre este acontecimento está longe de ter explorado todas as suas virtualidades. Este trabalho, que se apoia na investigação existente, pretende ser um contributo para o estudo compreensivo da pandemia, nomeadamente no que diz respeito às estratégias de gestão da saúde pública. Com a sua realização procuramos não apenas compreender em termos multidimensionais um acontecimento marcante da história da sociedade portuguesa, que envolveu os campos político, científico e as diversas agências envolvidas na saúde pública. Procuramos também utilizar este estudo de caso para reflectir, à luz do que aconteceu nessa altura, sobre as diversas dimensões - económicas, sociais, culturais, políticas e científicas - da problemática das epidemias e sobre os riscos de pandemia com que nos confrontamos no universo globalizado dos nossos dias, que continuam a ser uma preocupação fulcral das agências nacionais e internacionais de saúde pública. De facto, esta pandemia apresenta muitas das características que alguns autores salientam como típicas da sociedade em que vivemos actualmente, uma "sociedade do risco" global. Foi uma ameaça global no sentido actual do termo, na medida em que o vírus da gripe, tal como muitos perigos actuais, não conheceu fronteiras de países, de continentes, nem de espécies. Foi uma ameaça de um tipo que desafiava as estruturas de saúde da altura que não estavam preparadas para dar resposta a este tipo de problema e que continua a suscitar inquietação na comunidade científica, que receia a probabilidade de uma ressurgência (idem). E, provavelmente, tratou-se de uma ameaça que, como as actuais, foi objecto de interpretações contrastantes, construídas na interacção entre os diversos agentes sociais e as diferentes forças políticas. As características da pandemia de 1918-19 prestam-se, assim, a um estudo à luz dos debates actuais sobre os novos riscos. Um estudo em que se procurará estudar as ideias, representações e controvérsias suscitadas pela epidemia e compará-las com as que rodeiam fenómenos similares na actualidade. A situação presente, de um mundo ainda mais unificado do que o de então, nomeadamente pelas migrações das últimas décadas e pela massificação do transporte aéreo, faz com que continuem vivos os receios de uma ressurgência da pandemia. Nesse sentido, este trabalho sobre a gripe pneumónica tem como objecto analisar simultaneamente o fenómeno no seu contexto específico e contribuir para uma reflexão mais alargada sobre as pandemias na actualidade e as suas consequências para a saúde pública.

Objectivos: 
<p>-Contribuir para uma sistematização da informação sobre o surto de gripe pneumónica em Portugal, situando-o no contexto demográfico, económico, social, político e cultural da época;</p><p>-Compreender como é que este fenómeno, novo a muitos títulos, que desafiava os conhecimentos e as estruturas da altura, é representado pelos diferentes grupos e actores sociais; </p><p>-Analisar as estratégias de saúde pública utilizadas na altura para a gestão do risco epidemiológico, à luz das controvérsias políticas, científicas e religiosas da época;</p><p>-Comparar as reacções a esta pandemia numa sociedade ainda predominantemente agrícola, dominada pela iliteracia, onde a visão religiosa do mundo permanece influente apesar da concorrência da explicação científica, com as reacções a surtos epidémicos com características semelhantes na actual "sociedade de risco", que tende a ser urbana, letrada e, numa grande parte do mundo, permeada pelo prestígio do discurso científico.</p>
State of the art: 
Apesar da enorme relev&acirc;ncia da influenza de 1918-19 ? com estimativas que apontam para um n&uacute;mero de mortes entre os 21 e os 60 milh&otilde;es (Crosby 1993; Diamond 1998; Heller 1998; Porter 2003; Philips &amp; Killingray 2003), os estudos sobre esta cat&aacute;strofe mundial s&atilde;o em n&uacute;mero bastante reduzido. De facto, ap&oacute;s uma primeira fase quase contempor&acirc;nea dos surtos, em que se publicaram muitos relatos da epidemia, apenas no final dos anos 70 come&ccedil;a a haver alguma investiga&ccedil;&atilde;o sistem&aacute;tica (Philips &amp; Killingray, 2003). Em Portugal passa-se o mesmo. Encontramos um conjunto de obras de relato e an&aacute;lise da gripe pneum&oacute;nica na altura da sua ocorr&ecirc;ncia, das quais se destacam os trabalhos de Ricardo Jorge (1919), seguindo-se depois um longo per&iacute;odo de sil&ecirc;ncio quase absoluto (Sampaio 1958). O interesse pelo fen&oacute;meno renasce em alguns trabalhos acad&eacute;micos, como os de Frada (1989, 1998 Trindade (1998) e Gir&atilde;o (2002). <br />Com a sua realiza&ccedil;&atilde;o deste trabalho procuramos, por um lado, compreender em termos multidimensionais um acontecimento marcante da hist&oacute;ria da sociedade portuguesa; por outro, utilizar este estudo de caso para reflectir, &agrave; luz do que aconteceu nessa altura, sobre os riscos de pandemia com que nos confrontamos no universo globalizado dos nossos dias. <br />Refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas <br /><br />Crosby, Alfred W. (1993). Influenza. In K. F. Kipple (Ed.) The Cambridge World History of Human Disease, (pp. 807-811). Cambridge: Cambridge University Press. <br />Diamond, Jared (1998). Guns, Germs and Steel. Londres: Vintage. <br />Frada, J. J. C&uacute;cio (1998). A Pneum&oacute;nica de 1918 em Portugal Continental. Estudo socioecon&oacute;mico e epidemiol&oacute;gico, com particular an&aacute;lise do concelho de Leiria. Tese de doutoramento apresentada na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. <br />Frada, J. J. L&uacute;cio (1989). Lisboa e a pneum&oacute;nica de 1918, numa perspectiva m&eacute;dica, econ&oacute;mica e social. Provas de Aptid&atilde;o Pedag&oacute;gica e Capacidade Cient&iacute;fica apresentadas na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. <br />Frada, J. J. L&uacute;cio (2000). A Pneum&oacute;nica de 1918 em Portugal Continental. Estudo socioecon&oacute;mico e epidemiol&oacute;gico, com particular an&aacute;lise do concelho de Leiria. Revista da Faculdade de Medicina de Lisboa, S&eacute;rie III, volume 5(2), 127-132. <br />Gir&atilde;o, P. J. M. (2002). A gripe pneum&oacute;nica no Algarve (1918). Tese de Mestrado em Hist&oacute;ria Regional e Local apresentada na Universidade Nova de Lisboa. <br />Heller, P.B. (1998). 1918-1919 Influenza Epidemic Strikes. In J. Powell (Ed.), Cronology of European History (vol 2, pp. 1329-1331). Chicago: Fitzroy Deorborn Publishers. <br />Jorge, R. (1919). La Grippe. Rapport pr&eacute;liminaire pr&eacute;sent&eacute; &agrave; la Comission Sanitaire des Pays Alli&eacute;s dans la session e Mars 1919. Lisboa : Imprensa Nacional. <br />Kilbourne, E. (2003). A virologist?s perspective on the 1918-19 pandemic. In H. Philips, &amp; D. Killingray, (Eds). The Spanish Influenza Pandemic of 1918-19: New perspectives (pp. 29-38). London: Routledge. <br />Philips, H., &amp; Killingray, D. (2003). Introduction. In H. Philips, &amp; D. Killingray, (Eds). The Spanish Influenza Pandemic of 1918-19: New perspectives (pp. 1-25). London: Routledge. <br />Porter, R. (2003). Blood and Guts: A Short History of Medicine. London: Penguin Books. <br />Sampaio, A. (1958). Subs&iacute;dios para o estudo da epidemiologia da gripe. Lisboa. <br />Trindade L. (1998). A epidemia de gripe pneum&oacute;nica: a morte anunciada. Hist&oacute;ria, XX(8), 36-45.
Luisa Lima
Paula Castro
Coordenador 
Data Inicio: 
01/04/2005
Data Fim: 
01/12/2007
Duração: 
32 meses
Concluído