"E depois do primeiro filho?" Os meandros da construção "a dois" de biografias conjugais de fecundidade

"E depois do primeiro filho?" Os meandros da construção "a dois" de biografias conjugais de fecundidade

A baixa fecundidade da sociedade portuguesa tem como traço distintivo o peso das descendências de filho único, realidade que urge interpretar pelas consequências sociais, familiares e políticas que acarreta. Mas também pela perplexidade que causa quando confrontada com outras tendências, como a consolidação do modelo ideal de dois filhos e o recurso mais generalizado à contracepção moderna, que permite adequar as práticas às aspirações procriativas. É sobre este paradoxo que queremos reflectir, a partir da clarificação dos meandros da construção "a dois" dos projectos de fecundidade de casais que têm apenas um filho. No impasse entre ficar pelo filho único ou aumentar a descendência, queremos desvendar o modo como se articulam, nesta (in)decisão, variáveis das biografias individuais e da biografia conjugal da fecundidade já construída. Mas também queremos conhecer o impacto dos diferentes contextos sociais em que estas biografias são produzidas, pois engendram constrangimentos e quadros de valores específicos.

Estatuto: 
Entidade participante
Financiado: 
Não
Keywords: 

Biografia Conjugal, Filho Único, Fecundidade, Família

A baixa fecundidade da sociedade portuguesa tem como traço distintivo o peso das descendências de filho único, realidade que urge interpretar pelas consequências sociais, familiares e políticas que acarreta. Mas também pela perplexidade que causa quando confrontada com outras tendências, como a consolidação do modelo ideal de dois filhos e o recurso mais generalizado à contracepção moderna, que permite adequar as práticas às aspirações procriativas. É sobre este paradoxo que queremos reflectir, a partir da clarificação dos meandros da construção "a dois" dos projectos de fecundidade de casais que têm apenas um filho. No impasse entre ficar pelo filho único ou aumentar a descendência, queremos desvendar o modo como se articulam, nesta (in)decisão, variáveis das biografias individuais e da biografia conjugal da fecundidade já construída. Mas também queremos conhecer o impacto dos diferentes contextos sociais em que estas biografias são produzidas, pois engendram constrangimentos e quadros de valores específicos.

Objectivos: 
Conhecer as circunstâncias que sustentam o aumento das descendências de filho único na sociedade portuguesa contemporânea é o objectivo fundador da pesquisa. No momento em que a profunda transformação da paisagem demográfica europeia - baixa natalidade, envelhecimento - coloca novos desafios aos poderes políticos e às sociedades, pensamos que é imperativo reflectir sobre aquela realidade. <br />Pretendemos fazer um retrato das famílias de filho único na sociedade portuguesa, a partir de fontes estatísticas (evolução recente, distribuição regional, caracterização sociográfica), para depois enquadrar o caso português no contexto europeu e em especial da Europa do Sul. A queda recente e célere do índice sintético de fecundidade destes países tem levado à equiparação de realidades que encerram singularidades importantes, ao nível da evolução daquele indicador e da prevalência das descendências de filho único. <br />É sobre este pano de fundo que pretendemos investigar os processos e as razões que conduzem à decisão de ter um filho único, a partir de entrevistas em profundidade a casais que têm apenas um filho, num momento de encruzilhada da biografia conjugal de fecundidade: ficar ou não pelo filho único. Queremos desvendar o seu impacto na tomada de decisão, mas também o das biografias individuais e o dos contextos sociais.
State of the art: 
O recuo da fecundidade europeia a partir de meados do s&eacute;culo XX inscreve-se na longa tend&ecirc;ncia de redu&ccedil;&atilde;o intencional dos nascimentos (Bardet e Dup&acirc;quier, 1986; Bandeira, 1996) conhecida por ?primeira revolu&ccedil;&atilde;o contraceptiva? (Leridon, 1987). Todavia, s&oacute; quando os casais passaram a ter &agrave; disposi&ccedil;&atilde;o m&eacute;todos anticoncepcionais de alta efic&aacute;cia ? o que aconteceu em pleno s&eacute;culo XX ? &eacute; que passou a ser poss&iacute;vel domesticar a fecundidade. Esta ?segunda revolu&ccedil;&atilde;o contraceptiva? (idem) transformou a rela&ccedil;&atilde;o do casal com a procria&ccedil;&atilde;o, pois passou a ser uma arena sujeita a processos de decis&atilde;o: ter filhos ou n&atilde;o, quantos e quando. N&atilde;o obstante, estudos europeus t&ecirc;m referido a uniformidade de representa&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas procriativas: s&atilde;o poucos os casais que decidem n&atilde;o ter filhos (Toulemont, 1995; McAllister e Clarke, 1998); e os dois filhos consubstanciam o ideal de descend&ecirc;ncia, situando-se a baixa a partir do terceiro (Segalen, 1999). <br />Portugal acompanha estas tend&ecirc;ncias, apesar do atraso da transi&ccedil;&atilde;o demogr&aacute;fica (Bandeira, 1996). Parte, nos anos 60, de um &iacute;ndice sint&eacute;tico de fecundidade dos mais elevados da Europa, caracter&iacute;stico de uma sociedade marcadamente rural; e o direito ao planeamento familiar s&oacute; foi conquistado em Abril de 1974 (Almeida, 2004), adiando a generaliza&ccedil;&atilde;o de pr&aacute;ticas contraceptivas seguras (idem; INE, 2001). A n&iacute;vel dos valores, os estudos apontam tamb&eacute;m para a preval&ecirc;ncia do ideal de dois filhos (Almeida e Guerreiro, 1993; INE, 2001), sendo de sublinhar o recuo acentuado do ideal de tr&ecirc;s filhos desde os anos 70 (Cunha, 2006). Outro tra&ccedil;o decisivo &eacute; o desfasamento entre a consolida&ccedil;&atilde;o daquele ideal e o aumento das descend&ecirc;ncias de filho &uacute;nico, cen&aacute;rio que resulta das dificuldades que as fam&iacute;lias sentem em satisfazer as (crescentes) condi&ccedil;&otilde;es indispens&aacute;veis para assegurar a vinda de uma crian&ccedil;a (idem). Trata-se de um sinal evidente da centralidade dos filhos na fam&iacute;lia e do empenho desta na sua promo&ccedil;&atilde;o social (Almeida e Wall, 2001; Almeida, 2003). <br />As pesquisas mais recentes sobre a fecundidade portuguesa t&ecirc;m auscultado separadamente os universos femininos e masculinos (Wall, 2003/2005, Cunha, 2006; Almeida, 2004). Mas faltam pesquisas que elejam o casal enquanto unidade de an&aacute;lise, como j&aacute; acontece com outros campos da vida familiar (Torres, 2002). Mesmo o estudo cl&aacute;ssico dos anos 70 de Kellerhals et al. (1982), onde, justamente, foram entrevistados casais sobre as suas aspira&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas procriativas, a quest&atilde;o da negocia&ccedil;&atilde;o conjugal ficou submergida pela magnitude dos contextos sociais, concluindo-se que &eacute; basicamente a situa&ccedil;&atilde;o escolar e profissional das mulheres que determina os perfis de fecundidade.
Coordenador 
Data Inicio: 
01/12/2006
Data Fim: 
01/12/2009
Duração: 
36 meses
Concluído