ICS Portugal Social em Mudança_2021
68 um melhor entendimento de vários dos efeitos desencadeados pela pandemia da COVID-19 nos domínios acima identificados. Impactos socialmente assimétricos e agravamento de desigualdades O acentuar das disparidades sociais, fruto de impactos diferenciados em função da maior expo- sição e vulnerabilidade de determinados grupos à crise sanitária e às alterações dela decorrentes, é um resultado transversal às várias análises efetuadas. Do ponto de vista das famílias, os casais com filhos menores tendem a ser os mais penalizados, não raro por duas vias: a dificuldade de gestão do tempo e da situação familiar num contexto que obriga a conciliar as exigências do teletrabalho com as implicações do ensino remoto e a ocorrência de quebra de rendimentos decorrente da interrupção de situações de integração precária no mer- cado de trabalho, que afeta, em particular, os escalões etários mais jovens (18-24 e 25-34 anos) e os menos qualificados. No domínio do ensino, os agregados mais pobres foram os mais prejudicados pela suspensão das atividades letivas presenciais e consequente generalização do ensino à distância, dado que possuem níveis mais baixos de acesso a equipamentos digitais e à internet e, ao mesmo tempo, beneficiam menos do apoio no estudo por parte dos pais, cujas competências de literacia digital são baixas. Também os idosos foram afetados de forma desproporcional em termos de mortalidade e morbilidade associadas à pandemia, de situações de isolamento social decorrentes do confinamento e, de uma forma geral, de retrocesso de condições de saúde e de qualidade de vida. Do mesmo modo, acentuaram-se as desigualdades sociais em função das condições de habitação existentes, com destaque para as situações de pobreza energética. Identificar, medir e caracterizar estes impactos socialmente assimétricos – os quais, aliás, tendem a reforçar-se entre si – é essencial para confirmar que a pandemia não afeta todos por igual, exigindo a definição de prioridades e medidas diferenciadas em função dos grupos e das situações de maior risco. Aceleração e reversão de tendências A crise pandémica acelerou tendências já em curso, mas que sofrem agora novos impulsos. Digitalização do ensino, feminização do processo de envelhecimento demográfico e aumento do consumo doméstico de eletricidade são exemplos de tendências anteriores à pandemia que foram acentuadas pelo novo contexto. A transição abrupta de um regime presencial para o ensino remoto de emergência favoreceu a expansão de meios digitais de aprendizagem em todos os níveis de ensino, mas perturbou a qualidade dos processos de ensino-aprendizagem, afetando professores, alunos e famílias. O reforço da femi-
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy MTY4OTk1