ICS Portugal Social em Mudança_2021

42 O impacto da pandemia na mortalidade da população, sobre- tudo nos mais velhos, tem de ser avaliado não só em termos do número de óbitos e da sua distribuição sociográfica, mas também em termos do excesso de mortalidade que induz. Embora se possa admitir que uma parte dos óbitos provocados pela infeção poderia sempre ocorrer, a outra parte só ocorreu devido a ela, pelo que existe um saldo líquido positivo. A questão que se coloca então é a de saber qual o contributo da pandemia para o aumento da mortalidade dos grupos mais velhos da população. O excesso de mortalidade verificado entre março de 2020 e maio de 2021, que corresponde ao período coberto pelos dados disponibilizados, é medido por referência à mortalidade média observada nas mesmas semanas entre 2015 e 2019, com base nos dados disponibilizados pela Human Mortality Database no âmbito do projeto Short-term mortality fluctuations (STMF, 2021). A consideração desta média proporciona uma referência mais estável do que a que seria obtida com base apenas num ano, na medida em que se reduz a influência das flutuações mais extremas. Desde modo, a comparação faz sobressair o excesso de mortalidade provocada pela pandemia em relação à que seria de esperar num ano «normal», tendo em conta o desdobramento por género e pelos três escalões superiores da estrutura etária. O comportamento da mortalidade entre março de 2020 e maio de 2021 segue o padrão conhecido, ou seja, a vaga inicial, um verão com mais óbitos do que habitualmente, a segunda vaga, no início do outono, e, por fim, a fase mais intensa da pandemia, nas primeiras semanas de 2021 (figuras 3.3 a 3.8). Commais ou menos flutuações, este padrão é independente do género e da idade. Um segundo padrão é também identificável nas diferentes figuras. Ainda que com exceções, os valores da mortalidade durante o período relativo à pandemia tendem a permanecer acima da mortalidade média até ao fim da terceira vaga, convergindo depois e assumindo com alguma frequência valores inferiores. Esta tendência de descida acentuada é mais visível nuns casos do que noutros, mas resulta de um efeito de «descompressão» da mortalidade não só devido aos valores bastante elevados que antes assumiu, mas também ao efeito de travagem das medidas de confinamento entretanto adotadas e ao início do processo de vacinação. No entanto, este padrão não se encontra reproduzido de igual modo. O grupo de 85 e mais anos, quer nos homens, quer nas mulheres, é o que mais se aproxima, apresentando sempre valores acima da mortalidade média até ao final da terceira vaga e, posteriormente, valores convergentes ou inferiores. Os outros dois grupos etários contemplam várias exceções, por apresentarem valores abaixo da média antes da terceira vaga e depois acima, mas, apesar disso, ajustam-se ao padrão descrito. Os dados também deixam bem explícito que o excesso de mortalidade provocado pela pandemia se concentra na terceira vaga, em que a amplitude das diferenças atinge valores bastante acima dos observados ao longo do período. Embora essa am- plitude seja sempre considerável, regista valores superiores nos homens. Se considerarmos a semana de janeiro que regista a variação mais alta entre a mortalidade média e a de 2021, os valores observados nos grupos masculinos de 65-74, 75-84 e de 85 e mais anos são, respetivamente, 91,2%, 79% e 111,4%, enquanto nas mulheres, nos mesmos grupos etários, são de 73%, 67% e 88%. A diferença entre estes dois perfis parece refletir, por um lado, a tendência já assinalada de uma sobremortalidade masculina associada à pandemia, que faz com que o desvio em relação à mortalidade média seja mais acentuado, e, por outro, o facto de a mortalidade ter mais impacto no grupo mais velho, independentemente do género. Refira-se ainda que este mesmo grupo etário regista um número de óbitos mais elevado do que os outros dois, sobretudo nas mulheres, conforme atestam os valores da escala numérica que acompanha as figuras. A conclusão é a verificação de um excesso de mortalidade ao longo do período coberto pelos dados que se fica a dever em grande parte, mas não exclusivamente, à pandemia. Apesar de esta surgir como causa mais provável e determinante, não se podem excluir eventuais contribuições de outras causas conhecidas, como os picos de calor verificados no verão de 2020, ou outras desconhecidas. Por isto, o excesso de mortalidade verificado não é redutível à mortalidade devida à pandemia Covid-19, tal como se encontra recenseada na informação recolhida e disponibilizada pela Direção-Geral da Saúde, embora a recubra em larga medida em termos de volume e de efeitos, em particular no que respeita à população mais envelhecida. O «excesso» de mortalidade II

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