ICS Portugal Social em Mudança_2021

21 Eram os indivíduos mais jovens e os menos qualificados que estavam sobrerrepresentados entre os que tiveram a vida pro- fissional interrompida. A vida profissional interrompida «Temos um restaurante e tivemos que fechar. Como vamos pagar as contas?» (mulher, 41 anos, suspensão/encerramento de atividade, agregado doméstico de casal sem filhos). Magalhães et al. 2020, 45. No início da pandemia, a busca de equilíbrio entre «salvar vidas e assegurar que as cadeias de abastecimento fundamentais de bens e serviços essenciais continuam a ser asseguradas» (Decreto n.º 2-A/2020, de 20 de março), ou seja, entre saúde pública e economia, obrigou à distinção entre atividades económicas e trabalhadores «essenciais» e «não essenciais». De um dia para o outro, estes trabalhadores «não essenciais» viram a sua vida profissional interrompida por desemprego, férias forçadas, lay-off ou fecho de negócio, no âmbito do encerramento compulsivo de instalações e estabelecimentos comerciais, desportivos, culturais, lúdicos, entre outros, e da suspensão de atividades de prestação de serviços (artigos 7. o , 8. o e 9. o do Decreto n.º 2-A/2020, de 20 de março). Embora com uma incidência baixa nesta subamostra do inquérito ICS/ISCTE COVID-19 (8,6%), vimos que foram os agregados domésticos de casais sem filhos que mais se confron - taram com a situação, em especial aqueles que, não tendo filhos, tinham outros menores a viverem com eles (10,6%). Em termos sociodemográficos (figura 1.7), o sexo é a variável que menos discrimina a experiência da interrupção involuntária da atividade profissional por via das medidas do estado de emergência. Eram, então, os indivíduos dos dois escalões etários mais jovens (18-24 e 25-34 anos) que estavam sobrerrepresentados, sintoma da sua ligação mais precária ao mercado de trabalho. Mas foram, sobretudo, os indivíduos com o ensino secundário ou inferior que mais se confrontaram com esta experiência (16,8%). Re- presentando apenas 13,3% dos indivíduos desta subamostra de população em idade ativa e a viver em casal (lembremos que a esmagadora maioria dos inquiridos tinha o ensino superior), este resultado demonstra a maior vulnerabilidade da população menos instruída às conjunturas adversas do mercado de trabalho. Os jovens e, principalmente, os menos escolarizados foram, então, os que enfrentaram as situações mais disruptivas na atividade profissional e as consequências económicas daí resultantes tal como na crise anterior (Cunha e Vieira 2019).

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