ICS Portugal Social em Mudança 2015

A SATISFAÇÃO COM A DEMOCRACIA Ekaterina Gorbunova, Edalina Sanches, Marina Costa Lobo PORTUGAL NO CONTEXTO EUROPEU EM ANOS DE CRISE 1 Esta secção pretende fornecer um breve retrato do estado da democra- cia em Portugal, situando-a no contexto europeu. As perceções dos cidadãos sobre a democracia são o foco desta secção e serão analisadas numa perspetiva comparada e longitudinal. A qualidade da democracia assumiu uma crescente centralidade nas sociedades de hoje e ocupa um lugar de destaque na academia e na agenda pública. Especialmente desde o início da terceira vaga de democratização (1974), um conjunto significativo de projetos internacio- nais, tem analisado a «saúde» das democracias numa perspetiva global, através da monitoriza- ção das perceções dos cidadãos sobre o funcionamento da democracia nos seus países e da avaliação das várias dimensões dos regimes democráticos. Estudos recentes sobre as atitudes dos cidadãos europeus em relação à democracia indicam que estes mantêm níveis elevados de adesão aos valores e aos princípios democráticos, mas que estão cada vez mais insatisfeitos com o funcionamento da democracia. Este desencanta- mento poderá estar relacionado com diferenças entre as expectativas dos cidadãos e o desempenho democrático dos governos (Norris, 2011), mas também dever-se ao facto de os cidadãos possuírem diferentes entendimentos sobre o significado de democracia (Ceka e Magalhães, 2014; Ferrin e Kriesi, 2014). Por outro lado, a avaliação da qualidade da democra- cia por especialistas demonstra que, em termos agregados, a Europa apresenta níveis elevados de democraticidade, ainda que persistam diferenças importantes entre países: no norte da Europa estão as democracias com mais qualidade, enquanto no sul e no leste se situam as que enfrentam mais desafios. Portugal é um dos países europeus com níveis de satisfação com a democracia mais baixos (Magalhães, 2009), um sentimento relativamente transversal aos grupos sociais. Em contra- partida, os valores pós-materialistas e as avaliações de curto prazo (nomeadamente, sobre o desempenho da economia e do governo) ganham terreno enquanto fatores explicativos da satisfação dos cidadãos com a democracia (Teixeira et al. , 2014). De acordo com as avaliações de especialistas, a qualidade da democracia portuguesa registou recuos importantes em matéria de governação e de soberania (Lobo, Jalali e Silva, 2013). 9

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