ICS Portugal Social em Mudança 2015
Conclusão IV referências bibliográficas Comparando os níveis de confiança nos diferentes agentes (Figura 5.9), verifica-se que a televisão tem particular destaque em Portugal (60%, face a 34% na UE), enquanto na União Europeia se registam taxas mais elevadas de confiança nos cientistas (40% face a 33% em Portugal) e nas ONGA (37% face a 33%). Portugal destaca-se também pela maior confiança nos professo- res (19% face a 12%). Segundo o mesmo inquérito, as fontes de informação ambiental a que os portugueses mais recorrem são a televisão (81%), a Internet e as redes sociais (38%), os jornais (25%) e os filmes e documentários na televisão (21%). Por fim, em termos longitudinais (Figura 5.10), apesar de uma alteração na forma como a pergunta é formulada nos inquéritos a partir de 2014 ², é notório o crescimen- to da confiança na televisão, sobretudo a partir de 2007, e nos cientistas, a que estará associado o substancial esforço de divulgação da ciência que se faz em Portugal nos últimos anos (Delicado 2006). Há também que considerar que os cientistas se têm tornado figuras mais conhecidas do público, com uma presença assídua nos noticiários televisivos (Schmidt 2008: 101), por vezes mesmo em representação de ONGA. Ao contrário do que sucede noutros países, a cobertura mediática da ciência (por exemplo, no caso das alterações climáticas analisado por Ramos e Carvalho 2008) tende a representar mais o consenso e a solidez do conhecimen- to científico do que as divergências e as incertezas. Verifica-se também alguma oscilação da confiança nas ONGA (decréscimo entre 2004 e 2007, subida desde então) e o declínio acentuado da confiança no governo e nas autoridades locais, que poderá estar associado ao desinvestimento estatal no ambiente, como visto no capítulo 2, e à generalizada falta de confiança no sistema político, acima registada. As empresas suscitam níveis de confiança sistematicamente baixos e com tendência de descida. Apesar da multidimensionalidade do conceito de confiança aqui utilizado, que se aplica tanto aos outros (interpessoal) como às institui- ções políticas e às fontes de informação, uma regularidade é notória: Portugal encontra-se sempre no grupo de países onde os níveis de confiança são mais baixos. Os dados longitudinais mostram que esta tendência está longe de se atenuar com o tempo. Em lugar de se aproximar dos países do centro da Europa, Portugal assemelha-se crescentemente a congéneres improváveis a Leste, os países com um passado de regimes comunistas. Se em alguns indicadores a divisão Norte-Sul se mantém (confiança no parlamento, nos políticos, no sistema legal), noutros os nossos usuais parceiros Espanha e Itália aproximam-se mais da média europeia (confiança interpessoal, confiança na polícia). No domínio ambiental, é de certa forma preocu- pante a ascensão da confiança na televisão, um meio particularmente sujeito a manipulações e a interesses (em que o agenda setting é muito orientado para a maximização das audiências), face à estagnação da confiança em cientistas e nas ONGA e a uma descrença quase total nos políticos e nas empresas. Se a estrutura da sociedade portuguesa, em particular os baixos níveis de escolaridade, pode em parte explicar a prevalência da descon- fiança em todos estes domínios, não estão ainda identificadas com clareza as causas (e as consequências) deste atavismo cultural nacional. ² Até 2011, a pergunta referia-se a «confiança quanto a assuntos ambientais», a partir de 2014 refere-se a «confiança no fornecimento de informação fiável sobre assuntos ambientais», apesar de as opções de resposta se terem mantido e a pergunta sempre ter sido feita na sequência de outra pergunta sobre informação ambiental. Delicado, A. 2006. «A promoção da cultura científica nos museus em Portugal», Sociologia Problemas e Práticas, n.º 51, 53-72. Putnam, R. D. 2000. Bowling alone: The collapse and revival of American democracy . New York: Simon and Schuster. Ramos, R. e Carvalho, A. 2008. «Science as rhetoric in media discourses on climate change». In J. Strunck, L. Holmgreen, & L. Dam (Eds.), Rhetorical aspects of discourse in present-day society . Cambridge: Cambridge Scholars Publishing, 223-247. Schmidt, L. 2008. «Comunicar a ciência: o papel dos media e os problemas científico-ambientais», in L. Schmidt e J. Pina Cabral, Ciência e cidadania: homenagem a Bento de Jesus Caraça , Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais, 85-112. 65
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