ICS Portugal Social em Mudança 2015

Autonomização e perceções de felicidade IV O aumento dos níveis de escolarização e, em particular, o crescimento do número de jovens a frequentar o ensino superior, a crise económica, as dificuldades de inserção no mercado de trabalho e o crescimento do desemprego, sobretudo junto das faixas mais jovens, têm tido impacto também na capacidade e na possibilidade de autonomiza- ção, nomeadamente residencial, dos jovens. Portugal, como vários outros países do sul da Europa, apresenta, tradicionalmente, uma idade mais tardia de saída de casa dos pais. Em comparação com a média da União Europeia verifica-se que em 2000 os jovens portugueses saíam de casa dos pais em média aos 28,2 anos, quando na UE a idade média era de 25,4 (Figura 4.13). Entre 2000 e 2013 assistimos, na UE e em Portugal, a uma tendência de aumento desta idade média. No caso europeu, essa idade elevou-se para os 26,1 anos, ao passo que em Portugal ela ascende aos 29 anos. Também no que se refere à idade média de saída de casa dos pais o espaço europeu apresenta fortes contrastes (Figura 4.14). Os países escandinavos destacam-se por serem aqueles onde os jovens se autonomizam mais cedo do agregado doméstico de origem, nomeadamente a Suécia (19,6), a Dinamarca (21) e a Finlândia (21,9). Esta autonomização precoce dos jovens nestes países prende-se com questões culturais, mas é certamente também favore- cida pelos apoios oferecidos pelo Estado aos jovens no momento da transição para o ensino superior. Por contras- te, os jovens dos países do Sul e do Leste da Europa tendem a sair de casa dos pais em idades muito mais tardias: em Portugal (29), Espanha (28,9), Grécia (29,3) e Itália (29,9) os jovens tendem a sair de casa dos pais já perto dos 30 anos; idêntico padrão regista-se em países como a Bulgária (29,2), Polónia (28,7) Roménia (28,5) e Eslovénia (28,8). Finalmente, observa-se ainda um grupo de países em que os jovens saem de casa já depois de ultrapassar os 30 anos: são eles Malta (30,1), Eslováquia (30,7) e Croácia (31,9). Quando questionados sobre o seu grau de felicidade (numa escala de 1 a 10), constata-se que a média de respos- tas dos jovens residentes em Portugal tende a ser próxima da média europeia, ainda que esta última seja mais constan- te ao longo dos anos do que o que se verifica em Portugal (Figura 4.16). Uma análise longitudinal ao longo de 10 anos sugere o impacto que a crise económica (e os problemas sociais e laborais que daí advêm) parece ter na perceção de felicidade dos jovens em Portugal. Se no início do século essa perceção atingia os 7,7 entre os jovens portugueses (acima da média europeia), em 2004 e em 2012 esse valor sofre uma quebra acentuada (para 7,1), muito possivelmen- te na sequência dos efeitos da recessão económica de 2003 e do plano de resgate económico implementado em 2011. A estabilidade da média dos valores europeus durante esse período pode explicar-se, pelo menos em parte, pela ausência, neste grupo em análise, de países como a Grécia e a Itália, onde os impactos da crise sobre a juventude fizeram sentir-se com particular acuidade. Em relação ao ano para o qual dispomos de dados mais recentes (2012), verificamos que os países europeus onde os jovens declaram ser mais felizes são a Dinamarca (8,4), a Noruega (8,3), a Finlândia (8,2), a Suíça (8,1) e a Holanda (8,1), todos eles países com um nível de vida elevado e que não foram tão afetados pela crise económica (Figura 4.15). Ainda assim é de notar que a perceção de felicidade por parte dos jovens não está sempre necessariamente associa- da às condições económicas e laborais do país. De facto, se em Portugal (7,1), Irlanda (7,2) e Itália (7,2), países afetados fortemente pelo desemprego jovem, os valores de perceção de felicidade são relativamente baixos, suplantan- do apenas os valores médios apurados junto dos jovens dos países da Europa de Leste, como a Bulgária (6,4), a Hungria (6,8) e a Ucrânia (6,9), já a Espanha, país com taxas de desemprego jovem entre as mais altas da União Europeia, destaca-se por ter perceções de felicidade mais próximas das do Norte da Europa (7,9). 54

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