ICS Portugal Social em Mudança 2015
Conclusão V As expectativas, os valores e os comportamentos familiares evoluíram de forma gradual e consistente desde o início do seculo XXI. A década de 2000 veio acentuar as mudanças que já se desenhavam nos anos noventa: um padrão mais uniforme de vida familiar assente em famílias pequenas; uma diversidade mais acentuada das formas de viver em família (apesar de se manter, como predominante, a família de casal com filhos); conjugalida- des cada vez menos formalizadas, assistindo-se a um aumento contínuo das uniões de facto e dos nascimentos fora do casamento; o aumento da divorcialidade e a queda da fecundida- de. O impacto da crise económica nestes indicadores é, também, visível e significativo. O que mais se destaca é sobretudo o aceleramento da queda da fecundidade a partir de 2010, situando-se hoje Portugal no grupo restrito de países de fecundi- dade «muito muito» baixa. Mas também encontramos uma quebra acentuada na dimensão da família, como efeito provável do envelhecimento da população e da queda da natalidade, assim como o crescimento recente dos nascimentos sem coabitação dos pais, que poderá estar relacionado com a emigra- ção masculina em casais jovens ou com o difícil acesso a casa própria em tempos de crise. O divórcio, pelo contrário, registou nos últimos anos uma ligeira desaceleração. No contexto europeu, Portugal situa-se no grupo de países com níveis elevados de divórcio e uma informalização crescente das relações conjugais. No que diz respeito ao risco de pobreza económica nas famílias com crianças, é importante sublinhar duas tendências. Por um lado, o agravamento do risco de pobreza em famílias com crianças a partir de 2009, ao contrário do que acontece em famílias sem crianças, onde o risco de pobreza se mantém mais ou menos estável. Em segundo lugar, o aumento acentuado do risco de pobreza em famílias com descendências numerosas e em famílias monoparentais. No contexto europeu, Portugal situa-se no grupo de países que apresentam hoje as percenta- gens mais elevadas de risco de pobreza em famílias com crianças. Por último, a análise relativa à divisão familiar do trabalho revela um movimento de fundo gradual em direção a um modelo de família mais igualitária. Nas atitudes, uma menor adesão a papéis de género assimétricos em que o homem é o principal ganha-pão da família, cabendo à mulher a responsabili- dade doméstica e, também, um menor desfasamento entre as atitudes dos homens, há uma década bastante mais favoráveis ao modelo assimétrico, e das mulheres. Nas práticas, o predomínio de um modelo em que ambos os cônjuges participam a tempo inteiro no mercado de trabalho, mantendo-se, no entanto, uma disparidade de género em que os homens trabalham em média mais duas horas semanais do que as mulheres, e uma crescente, embora ainda muito desigual, partilha das tarefas domésticas. No contexto europeu, Portugal apresenta um valor relativa- mente reduzido de disparidade de género no trabalho pago e ocupa uma posição intermédia no que diz respeito à participa- ção dos homens nas tarefas domésticas. De sublinhar, por fim, o impacto da crise económica na partici- pação dos homens e das mulheres no mercado de trabalho. Por um lado, quando trabalham, o aumento da carga horária para ambos, entre 2010 e 2014, em praticamente uma hora. Por outro, nos casais em que os dois são ativos, o aumento significa- tivo das situações em que ambos estão desempregados ou em que um trabalha a tempo inteiro e o outro está desempregado. Reveladores do desemprego e da precariedade gerados pela crise económica, estes dados apontam para mudanças na divisão conjugal do trabalho que resultam sobretudo dos constrangi- mentos do mercado de trabalho e não das opções das famílias. referências bibliográficas Cunha, V. 2014. «Quatro décadas de declínio da fecundidade em Portugal». In INE/FFMS , Inquérito à Fecundidade 2013. Lisboa: INE, 19-28. Delgado, A. e Wall, K. 2014. Famílias nos Censos 2011: Diversidade e mudança. Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências Sociais. Rosa, M. J. V. 2012. O Envelhecimento da Sociedade Portuguesa. Lisboa: FFMS/Relógio D'Água Editores. Wall, K., Almeida, A. N., Vieira, M. M., Cunha, V., Rodrigues, L., Coelho, F., Leitão, M. e S. Atalaia. 2015. Impactos da Crise nas Crianças Portuguesas: Indicadores, Políticas, Representações. Lisboa: ICS. Imprensa de Ciências Sociais. 45
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy MTY4OTk1