ICS Portugal Social em Mudança 2015

IV Práticas relativas às tarefas domésticas A consonância de posições de homens e de mulheres face ao sentido da injustiça reflete, então, o reconhecimento da sobrecarga feminina da esfera doméstica. Atitude face à divisão das tarefas domésticas no casal A participação dos homens na esfera doméstica é um tópico central na discussão sobre a igualdade de género na vida familiar. As duas rondas do ISSP indicam que os homens e as mulheres que vivem em casal manifestam um sentimento de justiça em relação à divisão das tarefas, ou seja, «fazem mais ou menos o que é justo» (Figura 3.19). Se a perceção prevalecente é a de uma distribuição justa do trabalho doméstico, que se acentuou aliás entre 2002 e 2014 (mais 7 pontos percentuais nos homens e mais 12 p.p. nas mulheres), a perceção contrária não deixa de ainda ser expressiva em 2014: 41% dos homens consideram que fazem «menos do que seria justo» e 33% das mulheres consideram que fazem «mais do que seria justo». Esta consonân- cia de posições de homens e de mulheres face ao sentido da injustiça reflete, então, o reconhecimento da sobrecarga femini- na na esfera doméstica. Este resultado é tão mais interessante quanto é acompanhado de um sentimento de justiça geral mais elevado nas mulheres do que nos homens (65% e 55% em 2014, respetivamente), sugerindo algum nível de incorporação e de conformação femininas com a desigualdade de género na vida familiar. Com efeito, no contexto europeu as mulheres portuguesas são das que menos se sentem injustiçadas, juntamente com as eslovacas, as lituanas e as dinamarquesas (entre 33% e 45%) (Figura 3.20). O segundo grupo de países onde o sentimento de injustiça é menor, com valores entre 45% e 52%, reúne Espanha, Suécia, Finlândia, Bulgária e Letónia. Importa frisar que nestes diferentes países os baixos níveis de sentimento de injustiça podem consubstanciar, tal como em Portugal, uma conformação com a desigualdade de género ou, contrariamente, um reconhecimento de uma divisão efetivamente mais equilibra- da do trabalho doméstico. Já a Irlanda, o Reino Unido, a França e a Áustria são os países onde a perceção de injustiça é mais acentuada, com 61% a 70% das inquiridas a manifestarem que fazem «mais do que seria justo». Apesar do relativo sentimento de justiça na divisão das tarefas, este não é acompanhado, na prática, por uma distribuição igualitária no casal do número de horas dedicado ao trabalho doméstico: em 2014, segundo os dados do ISSP, as mulheres dedicavam em média semanalmente mais do triplo do tempo do que os homens (Figura 3.21). Em relação à ronda anterior do ISSP verifica-se, mesmo assim, uma ligeira diminui- ção do desfasamento entre a participação de homens e de mulheres, que era em 2002 de 19 horas. Esta evolução resultou da combinação entre a diminuição de cerca de uma hora semanal de trabalho doméstico realizado pelas mulheres e o incremento, mesmo que ligeiro, na participação dos homens de 7 para pratica- mente 8 horas semanais. Não obstante o ónus do trabalho doméstico ainda recair grandemente sobre as mulheres, não podemos deixar de relacionar a mudança gradual que se observa quanto às práticas masculinas com o aumento do sentimento de justiça na divisão conjugal das tarefas. No contexto europeu, segundo dados do ISSP 2012, Portugal situa-se entre os países onde os homens dedicam menos horas semanais ao trabalho doméstico, juntamente com França, Finlândia, Alema- nha, Áustria, Lituânia (entre 7 e 9 horas) (Figura 3.22). Os polacos, isoladamente, destacam-se pelo elevado número de horas (mais de 17), seguidos pelos homens da Letónia e Eslováquia. Por seu lado, os restantes países registam valores intermédios de participação dos homens nas tarefas domésticas, entre 10 horas e 12 horas. 43

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