ICS Portugal Social em Mudança 2015

A satisfação com a democracia e a modernização IV O processo eleitoral e os direitos e liberdades são as dimensões que suscitam melhor avaliação por parte da população na grande maioria dos países europeus. O facto de a justiça social recolher as avaliações mais negativas é importante na medida em que dá conta de uma discrepância entre as expectativas democráticas dos cidadãos e o desempenho dos respetivos governos. A Figura 1.6 apresenta precisamente a correlação entre a avaliação que os cidadãos fazem de alguns elementos de justiça social (proteção contra a pobreza e redução das desigualdades) e a satisfação com a democracia. Verificamos que esta é uma correlação positiva e significativa. Em linha com contribuições recentes (Ceka e Magalhães 2014, Ferrin e Kriesi 2014), é possível afirmar que para o cidadão europeu a democracia não se resume apenas aos direitos e aos procedimentos democráticos liberais, já que inclui também uma componente de justiça social, o que implica a satisfação de necessidades básicas em matéria de saúde, emprego, educação, segurança social, entre outras. Para ilustrarmos este ponto, escolhemos dois indicadores que fornecem uma aproximação ao nível de justiça social do país, a saber, o Índice de Desenvol- vimento Humano e a Taxa de Desemprego. Na Figura 1.8 apresentamos as correlações entre estes indicado- res, respetivamente, e a satisfação com a democracia, verificando-se em larga medida as relações esperadas. Por último, analisemos as explicações segundo as quais o grau de satisfação com a democracia resulta de mudanças a longo prazo no acesso ao conhecimento, que aqui medimos pelo aumento dos níveis de escolaridade. Inúmeros estudos demonstram existir um forte impacto da educação nas atitudes relativamente à democracia, postulando que o desenvolvimento económico é acompanhado pelo aumento dos níveis de literacia, os quais, por sua vez, contribuem para o desenvolvimento das competências, dos conhe- cimentos e das capacidades cívicas dos cidadãos. É expectável que os cidadãos commaiores níveis de escolarização tendam a apresen- tar maior interesse e maior ativismo político. O que podemos esperar então das atitudes dos mais escolarizados relativamente à democracia? É o tema que iremos abordar nesta parte. A Figura 1.9 revela que na Europa, segundo os dados do European Social Survey, o grau de escolaridade e a satisfação com o funcionamento da democracia estão positivamente correlaciona- dos entre si, isto é, os cidadãos de ensino superior tendem a avaliar a democracia do seu país mais positivamente do que os menos escolarizados. Estes resultados corroboram vários estudos que encontraram uma relação positiva entre o apoio específico dos cidadãos ao regime democrático e os seus níveis de escolaridade. Esta correlação positiva confirma-se mesmo quando utilizamos indicadores semelhantes mas medidos no âmbito do país. O Knowledge Economy Index (KEI), um índice elaborado pelo Banco Mundial, permite-nos uma aproximação, na medida em que reflete a capacidade de um país gerar, adotar e difundir o conhecimento e usá-lo de forma eficaz para o desenvolvimento económico. O KEI é composto por quatro pilares da economia do conhecimento: ambiente económico e quadro institucional; educação e recursos humanos; sistemas de inovação; e tecnologias de informação e de comunicação. Como revela a Figura 1.10, os cidadãos dos países que fazem uma aposta mais forte no papel do conhecimento – e, consequentemente, da educação, da inovação e das novas tecnolo- gias de informação e de comunicação – estão bastante mais satisfei- tos com o funcionamento da sua democracia. 14

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