A Transição Alimentar na AML_Final

Ideias, imperativos e projetos: da transição alimentar à formação de uma rede metropolitana de parques agroalimentares na AML O abastecimento alimentar das cidades, sobretudo das que têm maior dimensão, envolve processos complexos pela quantidade e diversidade de produtos diariamente transportados e pela natureza perecível demuitos deles. Isso explica que, até recentemente, o aprovisionamento de bens alimentares nas aglomerações urbanas tenha sido encarado sobretudo como um problema de logística de distribuição: fazer chegar os alimentos em boas condições e em tempo útil aos consumidores. É verdade que nas últimas décadas a questão do abastecimento urbano tem vindo a incluir novas dimensões, como os circuitos curtos de comercialização e as relações diretas entre produtores e consumidores, e a associar-se a novos objetivos, como a sustentabilidade ambiental ou a alimentação saudável. Mas o conceito de sistema alimentar proposto nesta publicação é bem mais amplo, exigente e inteligente. Mais amplo, porque olha de forma integrada para a totalidade dos sistemas alimentares, isto é, da produção à transformação, distribuição, consumo e desperdício alimentar. Mais exigente, porque associa a existência de sistemas alimentares a múltiplos objetivos, da conservação do capital natural (solo, água, biodiversidade) à qualidade paisagística, da adaptação às alterações climáticas à descarbonização da economia, da segurança alimentar ao desenvolvimento local, para dar apenas alguns exemplos. E também mais inteligente, porque o conceito de sistema alimentar vem NOTA DE ABERTURA INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA ICS-ULISBOA acompanhado pela indicação de estratégias, instrumentos, escalas de atuação e formas de governança suscetíveis de acautelar uma operacionalização bem-sucedida e duradoura. É perante este contexto ambicioso que o conceito de estratégias de planeamento alimentar urbano e a figura de rede metropolitana de parques agroalimentares ganham a merecida centralidade analítica e propositiva numa publicação sobre transição alimentar na AML, que considero exemplar pela oportunidade do tema desenvolvido, pela diversidade de entidades e contributos que mobilizou e pelo caráter inovador, simultaneamente ousado e pragmático, das recomendações apresentadas. Tem sentido propor uma rede de parques agroalimentares para a área metropolitana de Lisboa? Os debates ocorridos durante um ciclo de três webinares, os exemplos inspiradores de cidades de outros países e as expectativas demonstradas pelos atores com intervenção no terreno indicam que sim. Mas essa seria uma conclusão pobre, e até injusta, em relação à qualidade do trabalho desenvolvido e dos resultados alcançados ao longo de um percurso partilhado por cerca de duas dezenas de entidades, da administração central, regional e local, da academia e da sociedade civil. Esta publicação vale pelo seu conteúdo, mas também pelo que ela representa: o produto final de um processo de incubação coletiva de uma visão inovadora e de um projeto estruturante para a área metropolitana de Lisboa. Será possível desperdiçar este esforço, ignorar esta convergência, recusar este apelo? O período pandémico que vivemos desde março de 2020 deu mais visibilidade e força à necessidade de olharmos para as grandes cidades com uma perspetiva de futuro. Visionários persistentes de gerações anteriores impuseram múltiplos espaços verdes, pequenos e grandes “monsantos”, nos vários municípios da região de Lisboa. Concretizar uma rede metropolitana de parques agroalimentares é uma forma de honrar esses pioneiros, aproximando-nos deles em lucidez, ousadia e capacidade de realizar no presente o que o futuro nos exige. João Ferrão Instituto de Ciências Sociais Universidade de Lisboa

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