CANCELADO «'Cipale wanga. O contrato é feitiço.’ Espiritualidade, Rumor e Resistências no trabalho forçado para as minas de diamantes da Lunda durante o colonialismo tardio em Angola»

GI Seminars
Fri . 17 Apr . 13h30 to 14h50
ICS ULisboa Sala Polivalente
CANCELADO «'Cipale wanga. O contrato é feitiço.’ Espiritualidade, Rumor e Resistências no trabalho forçado para as minas de diamantes da Lunda durante o colonialismo tardio em Angola»
Cristina Sá Valentim
Organização: 
GI "Identidades, Culturas e Vulnerabilidades" e do GI "Impérios, Colonialismo e Sociedades Pós-Coloniais"
Instituição: 
CES - Universidade de Coimbra - e INET-md - Universidade de Aveiro

Resumo:

«Neste seminário apresento uma canção cokwe recolhida e gravada no nordeste da atual Lunda Norte, entre 1951 e 1952, pela ex-Companhia de Diamantes de Angola (Diamang) / Museu do Dundo. A canção “Txipálè cumunguia. (Para contratado eu posso ir)” fala sobre o recrutamento forçado de um homem – Xariangue –  para as minas de diamantes da empresa, retratando-se uma situação vivenciada entre sentimentos de determinação e desespero, angústia e esperança. Entre outras coisas, a canção diz-nos que Xariangue percebia o trabalho contratado/forçado (cipale) como sendo feitiço (wanga). A partir de uma contextualização da canção com pesquisa etnográfica feita em Portugal e em Angola, que combina fontes históricas de arquivo (documental, sonoro e fotográfico) e memórias orais, pretendo discutir duas coisas que são interligadas. Por um lado, os modos como os/as trabalhadores/as cokwe da Lunda participaram como agentes ativos nas dinâmicas capitalistas do colonialismo tardio português. Por outro lado, como convocaram a sua cosmogonia, mitos e rumores, sistemas religiosos e práticas de sortilégio para lidarem com as violências do trabalho forçado, nomeadamente, como apropriaram, ressignificaram e incorporaram o sistema colonial português de forma a exercerem poder e controlo sobre ele. Constata-se que os idiomas do espiritual e do rumor possibilitaram negociações entre a Companhia e as autoridades tradicionais africanas e suas populações, fazendo emergir as contradições e as vulnerabilidades do poder colonial. Também, funcionaram simultaneamente quer como auxiliadores à exploração de recursos naturais e geológicos (território, paisagem e diamantes) e culturais (objetos/performances), e à consequente dominação das populações africanas pela Companhia e pelo Museu do Dundo, quer como ferramentas de empoderamento e de contrapoder para os/as africanos/as. Em suma, neste seminário gostaria de refletir no que esta canção pode trazer para pensarmos a ambivalência que caracteriza a relação das identidades colonizado-colonizador e dos conhecimentos produzidos nessa relação, e também, nas estratégias criativas e multifacetadas que os sujeitos subalternizados conceberam para resistirem à opressão colonial portuguesa.»

Cristina Sá Valentim é licenciada e mestre em Antropologia Social e Cultural pela Universidade de Coimbra, e doutorada em Sociologia, programa doutoral em 'Pós-Colonialismos e Cidadania Global' no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.  Tem realizado investigação nas áreas da antropologia, sociologia e estudos pós-coloniais, nomeadamente sobre migração e língua; colonialismo português, trabalho forçado e música; subalternidade e resistências; e, mais recentemente, ambiente, sustentabilidades, ecologia política e cultural. Com o apoio de uma Bolsa de Doutoramento FCT defendeu em 2019 a tese: "Sons do Império, Vozes do Cipale. Canções tucokwe, Poder e Trabalho durante o colonialismo tardio na Lunda, Angola". Nesse âmbito, realizou trabalho de campo em Portugal e em Angola através de pesquisa em arquivo colonial e de história oral. É responsável pela manutenção em backoffice do website www.diamangdigital.net na sequência da sua participação no projeto "Diamang Digital".  Atualmente é investigadora de pós-doutoramento no Centre for Functional Ecology - Science for People & the Planet (CFE) da Universidade de Coimbra e investigadora colaboradora no Instituto de Etnomusicologia - Centro de Estudos em Música e Dança (INET-md), polo da Universidade de Aveiro.